Chapter Text
Terminar um bom livro sempre deixava Byun Baekhyun em lágrimas. Seja fantasia, romance, mistério ou ficção científica, o golpe no coração ao ler a última página e fechar o livro era suficiente para torná-lo um morto-vivo pelas próximas semanas, se arrastando pela casa e murmurando o nome dos personagens que sentiria falta pelo resto da vida.
— O Baekhyun parece uma assombração aqui em casa. — Era o que o primo dele dizia toda manhã depois do encerramento de um livro. Daquela vez, não foi diferente. — Ele ficou a noite passada andando pelo corredor falando sozinho e arrastando uma corrente no calcanhar com um lençol na cabeça...
Baekhyun se inclinou por cima da mesa e deu um tapa na nuca dele; os dois quase começaram uma briga em cima do café da manhã. Nessas horas, a tia de Baekhyun sempre tinha que intervir.
— Parem com isso, vocês dois. Sungjin, silêncio na mesa.
— Só estou falando a verdade, mãe. Estamos morando com um fantasma — disse Sungjin, desviando de outro tapa.
Mas toda vez que Baekhyun terminava de ler um livro, era realmente como se ele tivesse se transformado em uma assombração, vivendo para arrastar a sombra dele pelos lugares e se perguntar por que os livros tinham que acabar tão rápido.
— É claro que eles acabam rápido demais, Baekhyun — disse Jeongyeon, a melhor amiga dele, pelo que parecia ser a milésima vez. — Você não pode encontrar um livro que fica maluco: não dorme, não estuda, não sai de casa, só lê tudo de uma vez até acabar.
— Eu não consigo não fazer isso — resmungou Baekhyun, deitando a cabeça na mesa e suspirando. — Se uma história é boa, eu não posso esperar para ler.
Jeongyeon revirou os olhos. Baekhyun não tinha tido tempo de reclamar com ela ainda, já que chegou atrasado para o primeiro período de aula. Assim que o sinal para o intervalo tocou, ele se jogou na mesa e começou a resmungar. Jeongyeon não precisou de nenhuma informação extra para saber qual era o problema.
— Terminou o livro, né?
— Eles ficaram juntos e foi lindo, tão lindo — choramingou Baekhyun, batendo a testa na mesa.
— Se foi final feliz, por que você está tão triste?
Era a mesma ladainha de sempre. Baekhyun se apaixonava por um livro, deixava de viver para ler obsessivamente por dois ou três dias, e então caía em uma ressaca literária de um mês, no mínimo. Jeongyeon, é claro, era a pessoa que mais sofria com isso, depois de Baekhyun. Ela sempre tinha que estar lá para ouvir o amigo falar por horas a fio sobre o novo livro pelo qual tinha se apaixonado, receber as ligações dele durante a madrugada quando algo importante demais acontecia e ele não podia esperar pelo outro dia, consolá-lo quando ele terminava de ler o livro e ficava devastado com o fim de algo que amou tanto, e então participar da busca pelo Próximo Grande Livro da vida dele.
Às vezes, Jeongyeon tinha a paciência de fazer carinho no cabelo de Baekhyun e garantir que ele encontraria outro livro pelo qual se apaixonaria, ou tomava a iniciativa e começava sozinha a busca por um novo livro. Outras vezes, ela não era tão paciente assim.
— Eu te avisei para ler mais devagar. — Ela arrastou a cadeira e se levantou. — Vou passar na cantina. Quer alguma coisa?
— Um livro? — pediu Baekhyun, sem esperanças. Jeongyeon riu e foi embora.
Ela voltou cinco minutos depois com uma lata de refrigerante na mão, conversando alegremente com a senhora Kim. Baekhyun tinha se esquecido de que teria o segundo período da noite com ela. Ver sua professora favorita entrar na sala animou um pouco os espíritos dele, mas não o bastante para que sorrisse.
— Boa noite, turma. — A senhora Kim parou na frente da sala, acenando para os outros alunos. Jeongyeon se espremeu entre as mesas para chegar no lugar dela, e foi nesse momento que a professora notou Baekhyun deitado sobre a mesa.
— O que é isso? — Ela perguntou, dando a volta na própria mesa e parando na frente de Baekhyun. Ele ergueu os olhos e encontrou o rosto dela franzido. — O que aconteceu com você hoje, Baekhyun?
— Ele fez de novo, professora — disse Jeongyeon, bebendo o refrigerante pelo canudinho com uma expressão entediada.
— O quê? Pintou o cabelo da cor errada? Parece bom para mim...
— Não, isso não — disse Jeongyeon, apontando para ele. — Ele fez de novo, aquela coisa de se apaixonar por um livro, ler tudo em menos de uma semana e depois sofrer porque acabou rápido demais e ele vai demorar para encontrar outro livro que goste.
— Ah, isso — disse a senhora Kim, sorrindo. — Uma pena, Baekhyun. Espero que tenha tido tempo para fazer o trabalho que eu passei enquanto lia o livro.
— Trabalho? — Baekhyun entrou em pânico por um segundo, e então se lembrou. — Ah, trabalho! Sim, eu fiz, mas esqueci de imprimir.
— Tudo bem, eu deixo você descer durante a chamada — respondeu ela, começando a apagar a lousa para começar a aula.
No fim da aula, Baekhyun recebeu um olhar gentil da senhora Kim.
— Hora da chamada. Baekhyun pode descer para buscar seu trabalho.
— Obrigado — exclamou Baekhyun, quase tropeçando ao sair da sala. Ele ouviu a professora chamando o nome dele para a chamada e Jeongyeon gritando que ele tinha faltado. Enquanto isso, ele atravessou o corredor e desceu direto para a biblioteca.
Baekhyun se debruçou sobre o balcão da biblioteca, tirando algumas moedas do bolso e jogando por cima de uma pilha de panfletos de uma loja de sapatos.
— Você só vem aqui quando eu estou fechando, né, Baekhyun? — disse a bibliotecária, Seulgi, encarando ele com uma falsa irritação. Baekhyun sorriu.
— Por favor. A entrega desse trabalho é hoje.
— Tudo bem, pode ir — disse ela, se abaixando para ligar a impressora na tomada. Baekhyun correu para o computador mais próximo e viu que ainda estava ligado, pedindo permissão para encerrar todos os programas. Ele cancelou a operação e enfiou a mão no bolso correndo para conectar o pendrive dele.
Foi nesse momento que ele viu. Brilhando com pequenas pedras azuis coladas ao redor da tampa, ainda conectado, estava um pendrive. Baekhyun o retirou e colocou o próprio, esperando carregar enquanto observava de perto.
O pendrive era inteiro azul por baixo das pedrinhas e não tinha nenhuma identificação, apenas uma corrente de prata na tampa. Ele deslizou a tampa de volta para o lugar e deixou-o em cima do teclado enquanto encontrava o arquivo do trabalho e iniciava a impressão.
Baekhyun desligou o computador e voltou para o balcão.
— Seulgi, você sabe de quem é? — perguntou Baekhyun, entregando o pendrive para a bibliotecária. Ela o analisou de todos os ângulos, deslizando a tampa algumas vezes antes de devolver para ele.
— Não sei, não.
— Devo deixar aqui? — perguntou Baekhyun. — Quem perdeu vai vir procurar, né?
— Provavelmente — disse ela, dando de ombros. — Mas não, não deixe aqui. A biblioteca não abre amanhã, e eu vou estar de folga na quarta. A bibliotecária nova não precisa de mais estresse guardando essa coisa.
— Posso deixar na secretaria, então?
Seulgi empurrou o pendrive de volta para Baekhyun com um suspiro.
— Por que você não tenta descobrir de quem é e devolve sozinho? Talvez a pessoa também precise disso com urgência para imprimir um trabalho atrasado. — Ela levantou as sobrancelhas sugestivamente, entregando a Baekhyun as folhas do trabalho dele.
— Não seria melhor você tentar descobrir de quem é? — perguntou ele, se esticando para pegar o grampeador sobre a mesa de Seulgi, atrás do balcão.
— Não, por Deus, não — disse ela, balançando a cabeça. — Da última vez que eu vasculhei um pendrive para tentar descobrir quem era o dono, encontrei coisas das quais até o diabo duvida. Nada disso. Eu estou aqui, ficando depois do meu horário para te fazer um favor, então você me deve uma. Pode descobrir sozinho quem é o dono. Se você não tivesse visto ele aí eu nem saberia que estava perdido de qualquer forma.
— Como eu vou descobrir de quem é?
— Olhe os documentos. Se tiver algum trabalho, vai ter nomes. Se não tiver trabalhos, alguma foto você vai acabar encontrando.
— E se for o pendrive de alguém que vende imagens perturbadoras na deep web? — perguntou Baekhyun, colocando o pendrive no bolso junto com o dele.
Seulgi soltou uma risada, jogando a alça bolsa sobre o ombro e tirando a chave da biblioteca do bolso.
— Você acha mesmo que alguém que vende imagens perturbadoras na deep web usaria um pendrive cheio de lantejoulas?
— Como eu vou saber? Não faço nenhuma dessas coisas.
Seulgi soltou um suspiro, pegando de volta o grampeador.
— Vamos, Baekhyun. Já imprimiu seu trabalho. Eu quero comer o sorvete de três meses atrás escondido no fundo do meu congelador enquanto assisto a luta de hoje.
Baekhyun fez uma careta, mas agradeceu Seulgi e desejou uma boa noite antes de sair correndo de volta para a sala de aula.
A senhora Kim já tinha terminado a chamada, mas a maioria dos alunos ainda estava na sala. Ele correu e entregou o trabalho para a professora.
— Não deixe mais para a última hora — disse a senhora Kim, mas o sorriso dela era gentil. — Você é um dos meus melhores alunos, Baekhyun.
— É só porque ele cola nas provas — disse Jeongyeon, jogando a mochila nas costas. Baekhyun fez uma careta para ela, e foi pegar a própria mochila.
Eles se despediram da professora e acompanharam a multidão de alunos até a saída. Caminharam juntos por algumas ruas, antes de seguirem por ruas diferentes. Jeongyeon, apesar da impaciência de mais cedo, prometeu a Baekhyun ajudá-lo a encontrar um livro para ler.
— Quando você casar o marido é seu — Baekhyun gritou, descendo a rua enquanto ela subia.
— Não, obrigada, eu prefiro a festa — Jeongyeon gritou de volta. Baekhyun riu, finalmente se virando e se apressando para chegar em casa.
Sungjin estava na sala enrolado em uma coberta e segurando uma bacia de pipoca quando Baekhyun entrou. Ele passou pelo primo em silêncio depois de tirar os sapatos na entrada, fazendo questão de deixar um tapa na nuca dele. Ele foi até a cozinha e pegou uma garrafa d'água antes de ir para o quarto.
Depois de se livrar das meias e da mochila, Baekhyun pulou direto na cama e ligou a TV, puxando o notebook para o colo ao mesmo tempo. A luta já tinha começado, mas Baekhyun não conhecia nenhum dos boxeadores na tela, então ignorou os sons enquanto esperava o notebook ligar. Ele puxou o pendrive azul do bolso, observando de perto as pequenas pedrinhas brilhantes mais uma vez antes de conectá-lo na entrada.
O dispositivo foi reconhecido imediatamente, mais rápido do que o pendrive de Baekhyun costumava ser reconhecido. Ele franziu as sobrancelhas, pensando na injustiça daquilo, e abriu os documentos principais.
Havia apenas três pastas no pendrive, uma delas chamada "Faculdade e suas desgraças", outra chamada "NCDS" e a última sem nome. Baekhyun entrou direto na pasta da faculdade, mas ela estava vazia. Ele voltou e entrou na próxima pasta, "NCDS". Aquela estava cheia, uma lista interminável de arquivos numerados e organizados. Baekhyun clicou no primeiro.
"História: Na Cidade de Serim. Escrita por: LOEY".
— O quê? — murmurou Baekhyun, começando a rolar pelo documento. Era longo, com mais de quinze páginas, cheio de pequenas caixas de comentários. Baekhyun voltou ao início e começou a ler.
"O ar puro me fazia bem como nada mais poderia. Eu estava exatamente onde queria. Como um sonho realizado, minha vida estava começando."
Baekhyun leu por alguns minutos com o som da luta no fundo. Ele parou antes da terceira página e voltou ao início. Clicou na primeira caixa de comentário, inserida ainda no título.
"Postada no L1485 e em nenhum outro lugar. Espero que essa história seja um refúgio para todos que precisarem."
Baekhyun abriu uma aba para pesquisar o site e o encontrou facilmente. L1485, "Histórias que encantam o mundo". Era uma plataforma online para publicação livre de obras literárias. Baekhyun nunca tinha ouvido falar daquilo, mas navegou curiosamente por alguns segundos, observando as sinopses de algumas histórias antes de se lembrar do que tinha levado ele até ali.
Ele pesquisou o nome da história e encontrou o que estava procurando. LOEY, o autor da história, tinha uma foto de perfil que era uma xícara cheia de diamantes azuis. Baekhyun vasculhou o perfil dele, mas não encontrou nenhum outro nome pelo qual ele se identificava. Ele checou o primeiro capítulo da história dele. Nas notas do autor estava a mesma coisa, "Postada no L1485 e em nenhum outro lugar. Espero que essa história seja um refúgio para todos que precisarem". O capítulo postado era idêntico ao que estava no arquivo do pendrive. Baekhyun continuou lendo e antes de perceber o que estava fazendo já tinha passado da metade. A história não era parecida com as coisas que ele costumava ler, mas era interessante o suficiente para que ele não conseguisse afastar os olhos até sentir o celular vibrar em cima da cama.
Uma mensagem de Jeongyeon: "Eu sei que você já leu esses, mas eu só consigo pensar em Harry Potter ou Vermelho, Branco e Sangue Azul. Que tal uma releitura?”.
Baekhyun não se incomodou em responder, ligando para Jeongyeon no lugar. Ela atendeu no primeiro toque.
— Se estiver com vontade de ler algo novo, vou ter mesmo que sugerir Crepúsculo — disse ela. Baekhyun riu baixinho.
— Crepúsculo não é novo, Yeon, nós já vimos todos os filmes. Aliás, acho que todo mundo já viu todos os filmes.
— Minha irmã nunca viu os filmes. Ela diz que é um ato de rebeldia e um protesto político não se render aos vampiros brilhantes.
— Sua irmã é uma espécie diferente de ser iluminado — disse Baekhyun. — De qualquer forma, não importa. Eu acho que já encontrei meu Próximo Grande Livro.
— O quê? — exclamou Jeongyeon. — Byun Baekhyun encontrando seu PGL um dia depois de enterrar um grande amor? O que você encontrou?
— Não é bem um livro — murmurou Baekhyun, se distraindo por um segundo com a leitura antes de voltar a falar. — Eu encontrei um pendrive que esqueceram na biblioteca quando fui imprimir meu trabalho e a bibliotecária me mandou descobrir sozinho de quem era. Eu comecei a vasculhar os arquivos para ver se encontrava um nome e encontrei uma história. Tem uns vinte capítulos e acho que ainda está sendo escrita.
— Baekhyun, você roubou a obra incompleta de um desconhecido e transformou ela no seu PGL? — exclamou Jeongyeon, chocada.
— Primeiro: eu não roubei, foi o desconhecido que esqueceu o pendrive no computador da biblioteca. Segundo: eu não transformei ela no meu PGL. Você não escolhe um PGL, é o PGL que te escolhe.
— Baek, se a história está incompleta, não é para ser lida por ninguém — disse Jeongyeon, a voz quase estridente. — Eu sei como é ruim a sensação de alguém ver sua obra antes de estar pronta, quando minha irmã entra no quarto e vê meus quadros rascunhados. Você deveria pedir permissão antes de ler.
— Na verdade, eu não preciso — respondeu Baekhyun. — O autor da história está postando ela em um site chamado L1485 enquanto escreve. Tem comentários de outras pessoas nos capítulos e tudo mais. O pendrive só tem um capítulo a mais do que está no site, então mesmo estando incompleta, acho que o autor não se importa que a história seja lida.
— Ah, então nesse caso... — No fundo da ligação, gritos soaram abafados. Jeongyeon bufou. — Desculpa, é só o meu pai assistindo à luta.
— O cara acabou de ser nocauteado — confirmou Baekhyun, olhando para a TV.
— Mas então, quem é o dono do pendrive? Espera, ele é da nossa faculdade, certo? Baek, essa pode ser a primeira vez que você conhece o autor de um dos seus Grandes Livros.
— Seria, se eu soubesse quem é. A pessoa só se identifica por "LOEY", e o nome dele não está escrito em nenhum lugar no pendrive ou nos arquivos. Não faço ideia de quem seja.
— Ah, que droga — murmurou Jeongyeon, por cima de mais sons abafados. — Mas se ele perdeu o pendrive, vai aparecer para procurar em algum momento, certo? Se tem um capítulo da história dele aí, pode ser que seja a única cópia e ele precise dela. Você pode deixar o pendrive na secretaria e pedir que alguém te avise o nome de quem veio buscar.
— Duvido que alguém da secretaria vá se lembrar de fazer isso — disse Baekhyun, pensando no quanto a secretaria enchia nos períodos de aula.
— Então não pode deixar na biblioteca?
— A Seulgi me mandou descobrir sozinho quem era o dono do pendrive.
— Quantos obstáculos no caminho — resmungou Jeongyeon. — Tem certeza de que não tem nenhum arquivo com o nome dele? Se estava na biblioteca devia ter algum trabalho.
— Eu olhei as pastas, mas não tinha nada, só a história. — Baekhyun suspirou. — Eu vou olhar de novo, só para garantir.
— Vou cruzar os dedos para que você encontre. Quero saber quem é para agradecer o anjo que acidentalmente me livrou de passar um mês ouvindo você reclamar sobre seu Próximo Grande Livro que não chega nunca.
— Eu ainda não confirmei que esse é meu PGL — disse Baekhyun, apenas para provocar ela, já que durante a ligação inteira ele mal conseguiu tirar os olhos da história por mais do que cinco segundos.
— Tudo bem, vamos ver se você vai repetir isso amanhã quando chegar na aula com as olheiras batendo nos joelhos por ter passado a noite acordado lendo essa história.
— Há — disse Baekhyun, revirando os olhos. Ele se despediu de Jeongyeon e desligou, voltando a ler a história imediatamente.
Apenas para ter certeza, Baekhyun confirmou mais uma vez que os capítulos no pendrive eram os mesmos postados no L1485. O único que não estava lá era o último arquivo modificado, nomeado como "Rascunho do capítulo vinte e três", que ele prometeu a si mesmo que não leria por respeito ao autor.
Dito isso, Baekhyun voltou aos arquivos do pendrive e começou a ler os capítulos por lá em vez de ler no site, por um único motivo: as caixas de comentários. Tinha dezenas espalhadas ao longo da história, algumas com informações sobre a história, mas a maioria era apenas um monte de comentários hilários escritos pelo próprio autor. Baekhyun leu o capítulo avidamente, por vezes rindo por causa dos personagens e dos diálogos, mas principalmente rindo das pequenas notas que o autor deixou ao longo da história, tirando sarro das próprias ideias ou das cenas acontecendo.
Baekhyun se viu cativado pela história logo no segundo capítulo, interessado nos personagens e no enredo simples, mas bem executado, com diálogos afiados e descrições elaboradas. Os capítulos fluíam com facilidade entre si, de forma que Baekhyun nem percebeu que tinha terminado o terceiro capítulo até perceber que já estava fechando um arquivo e abrindo o próximo. O tempo voou ao redor dele, a luta já tinha acabado há um tempo; Baekhyun continuou lendo, envolvido na construção do clima de cada capítulo, na exposição equilibrada das informações mais importantes e na descrição rica da cidade fictícia em que a história se passava.
Não foi preciso nenhum esforço para encontrar o romance, visto que a química entre os personagens principais parecia lampejar e reluzir pela tela toda vez que eles se encontravam ou pensavam um no outro. Baekhyun tinha acabado de ler um livro relativamente calmo e de romance fácil, o que só ajudou a criar o contraste das faíscas de ler um algo mais intenso, com o suposto ódio sendo disparado entre o casal enquanto os olhos deles já brilhavam com os primeiros indícios de atração. Baekhyun gostava de ver uma boa briga incitada por pura tensão sexual, tanto quanto gostava de ver beijos compartilhados sob o pôr-do-sol.
Geralmente, depois de terminar um livro de romance, o Próximo Grande Livro da vida de Baekhyun era focado em outras coisas, como aventuras e mistérios, mas aquela história trabalhava o romance sob a pele dos personagens de uma forma diferente, colocando os sentimentos em foco ao mesmo tempo em que criava situações interessantes o bastante para que não fosse chato demais. Baekhyun seguiu lendo com voracidade, quase como se não tivesse terminado um livro incrível no dia anterior e, de acordo com as regras do organismo dele, só deveria sentir tanto interesse por uma história depois de três ou quatro semanas de inércia.
Baekhyun leu, leu e leu, até que desmaiou de sono e acordou às três da manhã com o notebook desligado por causa da bateria e o controle da TV transformando a bochecha dele em uma escultura. Ele se esforçou para levantar da cama e ir ao menos escovar os dentes e lavar o rosto. Quando ele saiu no corredor, encontrou Sungjin ainda no sofá da sala, a bacia de pipoca vazia apoiada em cima da cabeça dele como um chapéu enquanto ele jogava Clash of Clans.
— Vai fazer o percurso assombrado da noite? — perguntou Sungjin, sem desviar os olhos do celular. Baekhyun passou por ele na direção do banheiro, dando um tapa no meio da bacia na cabeça dele como única resposta. Ele voltou minutos depois, e Sungjin ainda estava na mesma posição.
— Seu cabelo vai ficar salgado e oleoso — disse Baekhyun, se arrastando para o quarto, ignorando a resposta espertinha de Sungjin.
Na manhã seguinte, Baekhyun saiu da cama guiado unicamente pela vontade de continuar lendo a história pela qual tinha se apaixonado tão rapidamente. Ele enfiou o notebook e o pendrive azul na mochila antes de pegar carona com a tia até o estacionamento onde ela trabalhava. Baekhyun passava as manhãs com ela para ajudá-la, e ele nunca tinha que fazer muita coisa além de pegar o troco para os clientes e guardar os capacetes dos motociclistas. A tia dele passava o dia todo manobrando os carros e cuidando do resto, então Baekhyun podia estudar ou, como ele fez naquele dia, passar o tempo inteiro lendo seja qual fosse o Grande Livro que estivesse consumindo a alma dele no momento.
— Byun Baekhyun, cinco pessoas já reclamaram dos trocos hoje — disse a tia dele, entrando na cabine onde Baekhyun ficava com a caixa registradora e o computador.
— Desculpa, tia — disse Baekhyun, mal tirando os olhos da tela do notebook enquanto esticava a mão para pegar o capacete que ela estava entregando para ele colocar na prateleira.
— Você tem uma prova monstruosa hoje ou encontrou um novo livro para ler? — perguntou ela, colocando as mãos na cintura e encarando ele. Baekhyun abriu um sorriso.
— Livro novo. Finalmente.
— Achei que você tivesse terminado aquele outro há pouco tempo.
— Foi mesmo, mas eu já me apaixonei por esse.
A tia dele sorriu, balançando a cabeça.
— Tudo bem. Você pode ir para casa agora, o movimento está menor e só vai aumentar na hora do almoço. Diga ao Sungjin para descer aqui.
— Sim, senhora! — Baekhyun guardou todas as coisas dele correndo e pegou a chave do carro com a tia, praticamente voando para casa. Ela trabalhava o dia todo, e Baekhyun a ajudava pelas manhãs enquanto Sungjin pegava o turno da tarde. Às vezes, Baekhyun caminhava de volta para casa, mas de quarta-feira a tia dele e Sungjin caminhavam pelo centro da cidade para visitar a feira no final da tarde, enquanto Baekhyun levava o carro embora antes do almoço. Quando ele chegou em casa, Sungjin já estava saindo com uma mochila nas costas e uma sacola nas mãos.
— Você está parecendo a noiva cadáver — disse Sungjin, passando por ele. Baekhyun revirou os olhos.
— É porque eu acordei cedo, ao contrário de você que dormiu tarde e acordou tarde.
— Privilégios de ser o mais bonito da família — Sungjin respondeu, antes de sair e fechar a porta atrás de si.
Baekhyun abriu o notebook e o colocou na mesa da cozinha enquanto ia preparar alguma coisa para comer. Ele não se importou em trocar de camisa ou tirar as meias, apenas lavando as mãos antes de pegar fatias de pão e queijo, tentando abrir Na Cidade de Serim com os cotovelos ao mesmo tempo.
No meio da refeição, Jeongyeon ligou para ele. Baekhyun também atendeu com o cotovelo, batendo no viva-voz antes de continuar lendo e mastigando alegremente.
— O pneu da minha bicicleta furou e eu sou a pessoa mais triste do mundo — Jeongyeon disse imediatamente, a voz ecoando na cozinha silenciosa. — Novidades sobre o PGL?
— A história se passa em uma cidade chamada Serim — Baekhyun começou. — Do Kyungsoo, o protagonista, é um artista promissor do Refúgio Arcano, um lugar aconchegante feito para artistas de todo tipo se encontrarem para viver da arte. O equilíbrio da vida pacífica de Kyungsoo se altera quando Kim Jongin aparece. Ele é bisneto da fundadora do Refúgio, e a família dele inteira toma conta das diversas unidades do Refúgio em Serim. Jongin cuida do prédio, tipo um faz-tudo, mas ele é um pé no saco que ataca os nervos de qualquer um.
— Parece... diferente? — disse Jeongyeon. Baekhyun sabia que aquele era o jeito dela de dizer que achou a história entediante.
— É tão bom que eu quero chorar toda vez que abro um novo capítulo e lembro que estou me aproximando do fim — disse Baekhyun, suspirando. Jeongyeon riu.
— Em que capítulo você está?
— Dezesseis. Tem vinte e três no total, contando com o capítulo que não devo ler.
— Você vai terminar hoje?
— Sem dúvida alguma — disse Baekhyun, puxando a garrafa de café que a tia tinha feito pela manhã para mais perto. — Eu tenho uma garrafa de café frio a meu dispor e a tarde inteira livre.
— Quantas horas de sono você pegou ontem?
Baekhyun soltou uma risada.
— Ousado da sua parte acreditar que eu dormi por mais que uma hora.
— Baekhyun, nós temos aula com a senhora Jang hoje.
— Perfeito, assim tenho uma desculpa para dormir a aula toda.
— Baekhyun...
— Desculpa, o quê? Não estou te ouvindo mais, a ligação está cortando.
Baekhyun encerrou a ligação sem um pingo de vergonha, voltando a ler enquanto devorava o sanduíche de almoço e se convencia a não cochilar para não perder nem um segundo sem ler aquela história.
><
O coração de Baekhyun já estava em pedaços quando ele começou a ler o capítulo vinte e dois da história e percebeu que não havia chance alguma que ele não terminasse em um momento de suspense. Ele estava grudado na tela do notebook, com menos de meia hora para chegar na faculdade para a aula, e tudo indicava um final triste para a nova paixão de Baekhyun. Ele não teria a oportunidade de terminar de ler aquela história porque ela simplesmente não estava escrita ainda.
— Não! — Baekhyun gritou, chegando ao final do capítulo. Sungjin, que estava entrando na cozinha naquele momento, pulou com o susto.
— Credo, Baekhyun!
— Shhh, agora não, pestinha. — Baekhyun fechou o arquivo da história e abriu o site L1485. Na Cidade de Serim terminava ali exatamente como terminava no arquivo do pendrive. Baekhyun esteve torcendo para a possibilidade do autor acabar atualizando a história antes que ele chegasse ao último capítulo escrito, mas aquela ideia parecia cada vez menos inteligente, uma vez que ele percebeu que não tinha como o autor escrever se ele estava guardando o pendrive dele. Baekhyun sussurrou um xingamento para si mesmo e voltou para a pasta de documentos do pendrive.
Por alguns minutos, ele encarou o "Rascunho do capítulo 23" com o coração acelerado. Seria maldade, quase crueldade fazer aquilo com o autor de uma história que ele gostava tanto. Baekhyun não queria desrespeitá-lo, e não queria ver algo que ele não estivesse pronto para entregar ao público, mas era tão tentador... A um clique de distância, estava a resposta para as perguntas dele, a resolução do mistério que ele não podia aguentar ficar sem saber. Baekhyun debateu consigo mesmo, pesando as consequências do ato antes de medir de zero a dez a própria vontade de ler o rascunho do capítulo.
De zero a dez, a resposta era cem. Baekhyun respirou fundo e abriu o arquivo.
Estava quase vazio. Baekhyun demorou dois segundos para ler a frase escrita ali, e então, como um bom dramático, ele caiu desmaiado.
— Baekhyun? — Sungjin chamou, confuso. Baekhyun não abriu os olhos. O celular dele começou a tocar.
— Eu morri — declarou Baekhyun. Sungjin atendeu a ligação.
— O Baekhyun mandou avisar que ele morreu.
— Sungjin? — A voz de Jeongyeon soou abafada pelo viva-voz. — Onde o Baekhyun está?
— Desmaiado no chão.
— Eu morri — Baekhyun repetiu.
— Baekhyun, qual é o problema? — Jeongyeon exclamou. — Sungjin, por que ele morreu?
— Eu não sei, ele estava lendo e caiu de repente.
— Ah — resmungou Jeongyeon. — Por favor, pode checar o que ele estava lendo?
— Claro. — A cadeira de Sungjin fez um som agonizante ao ser arrastada pelo chão, e então Baekhyun ouviu os passos dele ao redor da cabeça. — Ok... Ele estava lendo "NSDC, capítulo vinte e três". No arquivo em si só está escrito "Infelizmente, eu não consigo mais escrever essa história. Agradeço muito aos leitores que me apoiaram até aqui. Peço desculpas por decepcioná-los, mas essa vai ser a última atualização de Serim”.
Jeongyeon arquejou.
— Ah, não.
Silêncio na linha. Sungjin cutucou Baekhyun com a ponta do sapato.
— E então? Quando eu devo começar a reanimação cardiorrespiratória? Alô? Alguém aí?
