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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2024-07-07
Updated:
2026-05-12
Words:
77,092
Chapters:
14/?
Comments:
42
Kudos:
109
Bookmarks:
4
Hits:
1,870

Water and Sand Can't Mix

Summary:

Pac, um dominador de água, por algum motivo acaba no deserto do Reino da Terra. Enquanto ele tentava escapar de lá, vê uma vila que queimava por um ataque da Nação do fogo.

O que ele não sabia, é que correr para lá teria consequências sobre seus próximos meses ou até sua vida

Ou

Pac e Fit se conhecem de uma maneira bem desagradável
(OU esta é minha desculpa para combinar minhas duas hiperfixações >:D, o conhecimento de Atla não é necessário, mas um pouco de conhecimento é recomendado)

Notes:

Primeiramente quero agradecer aos minhas amigas que me aguentaram falando e me motivaram a escrever essa história. Sério, eu não mereço vocês.

Essa história foi inspirada nesse post do Tumblr e eu tive que fazer algo relacionado.
Tumblr post
Segundo, especificamente para os meus bros gringos, há uma versão em inglês que eu traduzi para vocês (não sou boa em inglês mas espero que seja boa o suficiente) deixarei o link abaixo
https://archiveofourown.org/works/57198913/chapters/145489306
Terceiro e mais importante, agradeço a você por escolher ler esta história. Espero muito que goste <3 boa leitura.

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: Capítulo 1

Chapter Text

O ar seco do deserto era o pior

 

Não sabia porque tinha tomado essa rota de caminho no Reino da Terra, talvez por conta do tal oásis que tinha em algum local. Não estava indo tirar férias, estava indo para reabastecer seus cantis de água. O deserto não era um bom local para um dobrador de água, ainda mais com suas roupas quentes feitas de peles de animais para o frio dos pólos, mesmo que seu casaco estivesse amarrado em sua cabeça de um jeito para que o sol não o atingisse diretamente, porém seus ombros ainda não escapavam do árduo sol.

Depois de tempos caminhando avistou uma grande nuvem preta vindo de uma pequena vila, seu coração errou uma batida, a ansiedade tomou conta de seu sangue.

“ Nação do fogo…” a única coisa que veio em sua mente. Não se importou com a pouca energia que tinha, com o calor que o maltratava ou com as dores em sua perna. Tinha que tentar ajudar as pessoas daquela vila - se havia sobrevivido alguma. 

Suas pernas começaram a se movimentar em automático em direção ao local das construções em chamas. Não estavam tão longe, mas ainda seria uma bela corrida.

O fogo consumindo as construções, o som das madeiras estralando, o cheiro de queimado e fumaça, as fuligens caindo do céu como uma nevasca negra, o calor insuportável que estava além do sol sob o dominador de água.

Sempre ficava surpreso com esses cenários frequentes. A destruição, o medo, a raiva e angústia eram sempre as mesmas. 

Todas as vezes o lembrando da cena de seu orfanato em chamas, com crianças e adultos gritando por misericórdia ao fogo. Quem não conseguiu escapar daquela tragédia foi carbonizado vivo, e quem conseguiu escapar a vida não teve misericórdia. 

Esse foi o caso de Pac.

Parecia que os soldados da nação do fogo haviam ido embora depois do ataque, provavelmente a pequena vila foi um desestressante para a trupe. Apenas a incendiando para o prazer de uns e desgraça de outros. 

E lá estava o homem de cabelos pretos. Havia chegado tarde demais, a cidade estava silenciosa, nada além do crepitar das vigas de madeira sobre as impiedosas chamas. 

Era difícil respirar antes mesmo de adentrar na vila, o gás tóxico do fogo piorou tudo. A primeira reação foi colocar a manga de sua jaqueta sobre a boca e o nariz para que talvez o tecido grosso filtre o ar poluído em sua volta. 

Seus olhos começaram a lacrimejar pelo gás, mas logo as lágrimas eram secas pelo ar quente do fogo. Se sentia fraco, as chamas consumindo sua energia junto do oxigênio. 

Pensava em gritar para se certificar que a vila estava sem a presença de nenhum sobrevivente, mas os instintos de sobrevivência eram mais fortes; os soldados da nação do fogo ainda podiam estar ali, pelo incêndio que aparentemente foi iniciado cerca de oitenta minutos. 

A audição logo se tornou a ferramenta mais eficiente naquele local que parecia ter apenas o som da destruição. Se os soldados estavam aqui, o som dos rinocerontes-de-komodo seriam ouvidos; porém, ao invés de ouvir os animais que supostamente estariam ali, escutou um choro. Um choro de dor, aqueles que apenas crianças podiam fazer; aqueles que apenas com uma intervenção de amor adulto poderia cessar.

Um sobrevivente.

 

O dobrador de água não se importou mais com a possibilidade dos soldados de fogo estarem na vila, precisava ajudar a criança. Passava correndo entre o que a algumas horas podiam ter sido casas, mas agora eram apenas vigas e - às vezes com “sorte” - paredes de barro destruídas com as marcas das queimaduras e fuligem negra.

Chegou em uma parte da vila onde o fogo era menor, parecia que tudo já havia se tornado brasa e carvão. 

Aquela parte é a que mais lhe dava tristeza e luto, sua mente criava imagens de como aquele lugar poderia ter sido antes. Imaginava as crianças correndo pelas ruas brincando, com sorrisos e risadas contagiantes; os comerciantes conversando e negociando com viajantes e moradores; as pessoas vivendo suas vidas simples cuidando de si e sua comunidade, mas essa imagem foi queimada viva pelo medo e desespero que a dominação de fogo causou naquela vila. Apagando qualquer resquício de felicidade ou simplesmente, apenas restando o silêncio e o crepitar das chamas.

Bem, era isso que pensava até ouvir o choro. O som humano ficava mais alto a cada passo corrido que Pac dava, aumentando a suas esperanças de encontrar pelo menos um sinal de vida em meio ao deserto e a destruição - mesmo que fosse de uma pequena criança.

As vibrações sonoras ficavam mais altas, e mais altas, e mais altas! A ponto de sentir o sangue pulsar em seus ouvidos, sua mente ansiando que aquele choro acabasse. 

Então o som ficou tão claro quanto lua cheia; era uma criança, entre oito a dez anos; cabelos marrons, curtos e encaracolados; sujo de fuligem na maior parte de seu corpo e roupas, que eram típicas da região do deserto - por mais que usasse um macacão de couro - e tinha uma bandana marrom, provavelmente manchas de terra, cobrindo seu pescoço com o nó sob o nariz - parecendo um pequeno mustache.

Estava sob a varanda de uma casa que foi consumida por dentro, mas seu esqueleto ainda servia de sombra e a varanda parecia ainda estável. Sua mão direita agarrava o braço esquerdo enquanto a mão canhota tremia em movimentos - sendo eles a tentativa de relaxar o punho que era apertado com força -, uma grande queimadura era visível de longe. A pele vermelha da carne sendo cozida enquanto a criança agonizava de dor, aquilo cortava o coração e rachava sua alma. Parecia que os gritos e os soluços o machucavam mais do que a própria queimadura. 

Esse cenário despertou as dores fantasmas de não tinha a tempos - por mais que o coto de sua perna estivesse doendo por caminhar muito com a prótese e não tirá-la por vários dias seguidos - a sensação de ter sua perna carbonizada enquanto ainda estava consciente, foi a pior dor que sentiu na vida, e ainda conseguia senti la queimar mesmo tendo a amputado a tanto tempo atrás.

Logo sua presença foi descoberta pela criança, que tentou parar de chorar para observar o homem à sua frente. Pac desfez o nó que segurava o casaco em sua cabeça, revelando seus cabelos curtos e negros e sua face com pequenas cicatrizes. Junto desprendeu o cinto com as facas - feitas de dentes de grandes presas - a mostra, pegou tudo e jogou em um lado da terra. Levantou os braços e caminhou lentamente até o garoto. Como passos de bebê; pequenos, calmos e pacientes. 

“Ei ei, vai ficar tudo bem; não vou te machucar, prometo. Qual seu nome?” 

Perguntava para manter a mente do outro fora do ferimento, mas a criança nada respondia. Nenhum som saía de sua traquéia, a não ser soluços e pequenos balbucios que eram tão fracos quanto sussurros.

“Parece que foi bem feio.” apontou com o queixo pois suas mãos estavam para cima “eu posso te ajudar com isso, mas vai ter que confiar em mim um pouco.” falava meigo, suave e passivo, tinha que dar o único amor adulto que poderia acabar aquele choro.

O menino se afastava um pouco ainda com medo - obviamente faria isso -, a presença do dobrador de água ainda o assustava, mas lentamente e com paciência, calma e cautela, conseguiu chegar próximo o suficiente para se ajoelhar em frente a ele e estender a mão para conseguir sua autorização para olhar o ferimento. 

A respiração do garoto era irregular, parecia que havia corrido quilômetros de tão rápida que era, seu peito indo para cima e para baixo com a entrada do oxigênio e a saída de Co2 - mesmo que parecesse que não tinha tempo de seus pulmões fazerem a transformação dos gases -, mas aos poucos foi se acalmando e se aproximando do dobrador de água com lentidão e cautela em cada movimento.

Finalmente estavam frente a frente; o rosto inchado, molhado, assustado e vermelho da criança olhando para o rosto cansado, suado e gentil que Pac tinha enquanto esperava ter a autorização do pequeno moreno para ver sua ferida. 

O garoto observava os traços faciais do adulto, analisando-os e decidindo se era uma boa escolha confiar em um estranho com roupas nada apropriadas ao deserto. Enquanto o dobrador de água ainda estava embaixo do sol, agora pegando seu rosto e outras partes que estavam cobertas pelo casaco antes, sentia sua visão lentamente escurecer, mas tinha de curar aquela criança antes de desmaiar de calor. 

Estendeu o braço olhando o queimado, então para o adulto, para a queimadura novamente, fechou os olhos com força respirando fundo e esticou o braço na frente da palma de Pac jogando a cabeça para o lado pensando na dor que sentiria.  Mas tudo que sentiu foram mãos gentis e calmas roçando sua pele perto da queimadura, analisando-a. Definitivamente não eram macias, podia sentir os calos nos leves toques, mas elas tomavam cuidado e parecia que era diferente do jeito que uma mão pegaria em seu braço. 

Assim, uma mão desistiu do braço, o que fez o pequeno moreno estranhar e olhar para o homem à sua frente, ele estava pegando o cantil de água, e dava para ver que ela era escassa naquele recipiente - com um gole podia secá-lo. 

A mão direita, trêmula, do viajante fazia movimentos que pareciam estar puxando a água, e realmente estava, o líquido flutuou até sua mão onde a envolveu e começou a brilhar em uma luz incandescente. Os olhos do moreno do deserto se expandiram ao ver que o viajante a sua frente era na verdade um dominador d’água - estava muito distraído com a dor para perceber suas vestimentas e fisionomia.

 Sempre ouvira histórias sobre suas técnicas de luta e cura; como poderiam inundar cidades - até mesmo países - se estivessem com esse objetivo; como eram ótimos navegantes e caçadores; como as grandes marés eram apenas pequenas ondas para eles.

“Posso…” uma pergunta muda do adulto a criança, a encarando com gentileza e preocupação com a mão sobre a queimadura.  O garoto pareceu ponderar por alguns segundos até assentir levemente autorizando o adulto a usar as habilidades de dobra d’água em seu braço. 

 

Porém o solo abaixo deles começa a tremer, o primeiro instinto do adulto foi largar a criança e empurrá-la para trás antes de uma parede de terra se levantar entre os dois. Os reflexos de Pac não estavam tão bons pelo estado que se encontrava, se entrasse em um combate agora, era certeza que perderia.

Sem vantagens físicas, geográficas e mentais, para piorar, o resto de sua água foi absorvida pela terra quando a dobra foi interrompida com muro levantado.  Estava cansado, com calor, sede, a perna doendo e quase desmaiando pelo sol e pelas chamas que ainda queimavam a vila sem piedade. 

Então outro movimento da parede, ela se deslocou rapidamente para onde o dominador de água estava, o mesmo deu um rolamento lateral muito mal feito pelo desgaste - tanto físico quanto mental - se machucando mais ainda no processo, provavelmente tinha dado um mau jeito em seu ombro. 

A rocha apenas parou quando atingir uma casa já em ruínas, aproveitou a brecha para encarar o adversário que atacava o adulto de cabelos negros; a visão quase escurecida não ajudava, parecia um borrão em meio ao ar quente. 

Vestia uma capa verde tão desbotada e suja de areia que duvidaria de alguém que quisesse recuperar a cor da vestimenta; aquele tecido cobria sua cabeça do sol e junto a metade de seu rosto e braços, deixando visível apenas os olhos, aquelas janelas para a alma mostravam a raiva e ódio que ele colocava no combate, a mistura do castanho com verde esmeraldas que banhavam em um poço de fúria. 

Não teve tempo de analisar mais nada sobre o inimigo, quando percebeu que ele estava lançando o próximo ataque. O som das chamas crepitando se misturando com o das pedras sendo levantadas do chão e jogadas em direção a ele. 

Um dominador de terra; e pelo que parece, um bem experiente e sem misericórdia. 

Desviou mais uma vez das pedras, se jogando para o lado. Segundos depois ouviu o som de outras construções em chamas se despedaçarem pelas rochas lançadas. Se levantou e correu tentando chegar perto de seu cinto com as facas, então outra rocha de tamanho médio foi lançada na direção da cabeça do dobrador de água. 

Parece que finalmente a adrenalina começou a correr em seu sangue o esquentando mais ainda e o fazendo seu coração palpitar mais rápido ainda. Se jogou ao chão de joelhos, derrapando sobre a areia, e conseguiu chegar perto das facas o suficiente para empunhar uma delas - se não tivesse desviado daquela pedra por segundos a mais, certeza que o estado de sua seria pior do que as casas atingidas pelos pedregulhos antes.

A respiração irregular, a vista turva e quase escurecida pioraram quando uma névoa de areia foi erguida em sua volta; sua visão já não serviria de nada, fechou os olhos e ficou em posição de defesa.

O sangue nos ouvidos, ouvido seu próprio batimento cardíaco, qualquer movimento errado naquele momento resultaria em sua - provável - morte. O som do fogo ainda soava no ar, o cheiro de fumaça misturado com a areia, as vigas de madeira - que agora já eram carvão - se espatifando no chão e se quebrando em brasas, o som do ar sendo cortado por passos abafados na areia.

ESQUERDA” seu instinto alertou, com os olhos ainda fechados - movimentou a faca a essa direção e sentiu-a rasgar algo com a lâmina afiada, então um gemido de dor. De momento se preocupou achando que tinha ferido mais o garoto por acidente, mas logo a possibilidade foi descartada com o tom daquele urro.

Era grosso, rouco, de um adulto; o som humano fez sua espinha se arrepiar, odiava ouvir aqueles tipos de gritos de agonia e dor - lembrava-o da noite em que perdeu vários dos que considerava família nas chamas. Mas aquela voz também parecia tão boa de se ouvir, como as ondas do mar batendo contra rochas em uma praia, violentas mas calmantes aos ouvidos.

Os pensamentos tiveram de ser cortados pelo próprio para sair da nuvem de areia, que já baixava pela gravidade. Corria para fora com o fôlego que tinha, pisando fundo na areia que entrava em seus sapatos, “sorte” que não sentia um deles. 

 

Então o impacto no chão, sentiu os grãos de areia entrando em sua boca e ouvidos, a adrenalina baixando e deixando as dores voltarem com força total. Sua respiração era pesada, tinha segundos de intervalo entre a entrada e saída de oxigênio. O suor que descia de sua testa parecia a única sensação que não o trazia dor. 

A poeira baixou com força, caindo sobre o dobrador de água sujando seus cabelos e roupas, a areia se misturou com a água que saía de seu corpo virando um tipo de lama. A dor no coto de sua perna latejava mais do que antes, e estranhamente sentia a areia e o sol sobre a parte onde ele acabava. Com a força que restava, arrastou sua cabeça para ver a causa de sua queda e da estranha sensação no resto de sua perna direita. 

Viu - o que momentos antes era - sua prótese, destruída e desacoplada do encaixe. A parte de metal agora era um destroço espalhado e coberto de areia. Não havia sido destruído por um impacto de uma pedra que foi jogada, não… foi amassada e arrancada por mãos humanas. Sua mente estava muito fraca e confusa para tentar racionalizar o que havia acontecido, a visão estava borrando e escurecendo mais rapidamente, sabia que logo perderia a consciência. 

Arrastou o rosto lentamente de volta à posição em que tinha marcado na areia quando caiu, tendo uma visão privilegiada do dominador de terra passando por cima de seu corpo e indo em direção a criança na varanda. Ele pressionava com força o lado esquerdo de sua cintura, conseguia ver a mancha vermelha carmim se formando naquele tecido verde desgastado com um grande rasgo nele, o sangue pingando e sendo consumido pela areia.

Uma ideia idiota formou-se em sua mente, mas provavelmente não iria sobreviver apos que a praticasse… Foda-se, não iria sobreviver de qualquer jeito naquele deserto sem água. 

Levantou a mão trêmula a poucos centímetros do chão, doía apenas de fazer isso, fez um simples movimento com ela e todo o suor de sua testa e corpo foi levantado acima de sua cabeça.

Quando não conseguiu mais segurar, transformou todo suor em uma estaca de gelo e a lançou na direção do pescoço do adulto desconhecido. Uma tentativa falha de tentar o parar, em momentos a estaca foi lançada ao chão com tamanha força que sua metade ficou submersa na areia. 

“Eu falhei…” sua mente lhe dizia enquanto sua visão se voltava ao dobrador de terra à sua frente, não entendia como o seu braço esquerdo brilhava contra o sol, o calor estava fazendo-o alucinar; suas pálpebras estavam caindo, sentia seu corpo queimar sobre o sol e a areia quente. Sua mente apaga vendo o homem a sua frente se afastar.

 

“Acho que vou te ver mais cedo Mike…”