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But Daddy I Love Him

Summary:

Eijirou Kirishima está preso em um noivado indesejado com Minouro Mineta, o capitão-tenente da marinha de Shiketsu. Fugir do casamento sempre foi sua especialidade, mas desta vez, seus pais estão determinados a colocá-lo no altar. Como última cartada, eles sugerem que Mineta leve Eijirou em uma viagem pelo alto-mar, na esperança de que o isolamento os aproxime.

No entanto, a bordo do navio, enquanto Eijirou tenta escapar das insistentes investidas de Mineta, eles são subitamente atacados por um grupo de piratas liderados pelo temido capitão Dynamight. Agora, todos estão à mercê de um homem tão imprevisível quanto o próprio oceano, e Eijirou se vê em uma situação onde a verdadeira aventura começa — e pode acabar encontrando muito mais do que esperava.

Notes:

Eu sempre quis escrever uma fic ABO, mas nenhuma ideia que eu tinha me agradava, até que reassistindo Piratas do Caribe e Planeta do tesouro eu pensei nessa fic e comecei a escrever, e acabei misturando uma estética de 1720 com steampunk, espero que quem for ler goste. Vou parar de falar por aqui, nos vemos nas notas finais (espero).

Chapter 1: Olhos de pirata tempestuoso e ousado.

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Próximo ao reino de Shiketsu, 1730

 

Kirishima Eijirou encarava o horizonte entediado. O passeio de navio deveria ser divertido, deveria ser a realização de um dos seus sonhos mais antigos, afinal sempre contava animado aos seus pais o quanto queria poder navegar um dia.

Ele lembra que um dos seus passeios favoritos quando criança era ir para a casa de veraneio dos seus pais. Poder observar o mar, a rotina de alguns pescadores próximos, pisar na areia e sentir o cheiro salgado da maresia no ar.

Mas, entre tudo, a sua coisa predileta a se fazer era ouvir escondido as conversas dos criados sobre piratas e monstros marinhos. Foi dessa forma que aprendeu coisas como: ao ouvir um canto em alto mar, você não deve olhar para as águas, pode haver sereias à espreita (elas são assassinas); cuidado com o nevoeiro marítimo, na maioria das vezes é o holandês voador atrás de novas almas; quando um pirata te fazer de refém, solicite a lei utroque compensandus vero pari , assim sua vida será poupada.

Eijirou não sabia o que essas palavras queriam dizer, mas sabia que elas poderiam o salvar de ser morto por piratas, então as decorou para o dia que fosse navegar pela primeira vez. Porém, ele nunca imaginou que seus pais usariam seu sonho como uma forma tão mesquinha, dizendo ser um presente de casamento antecipado; casamento esse que ele não queria.

E, aqui estava ele, escorado na proa olhando para o mar calmo enquanto seu noivo — escolhido a dedo pelo seu pai — falava pelos cotovelos. Se gabava de como ele, um homem de honra e um alfa exemplar, conquistou todos os seus méritos antes de completar 30 anos, e conseguiu ser promovido a Capitão-Tenente. Cada palavra dita meticulosamente pensada para engrandecer o próprio ego era mais entediante que a outra, na visão de Kirishima.

Não era assim que imaginou que seria sua primeira viagem de navio, ao lado de um alfa que se vestia com as piores combinações de roupas que já viu e com a peruca branca mais ridícula de toda a corte. Mesmo que o acessório estivesse na moda, Mineta ficava ainda mais brega ao usá-las. Piorava quando o homem só sabia falar de si.

Se Ejirou fosse sincero, não planejou passar a véspera do ano novo dessa forma, muito menos estar noivo aos 20 anos. Mas, seus pais sempre davam um jeito de surpreendê-lo, e seu dever como filho único era acatar tudo que seus pais lhe mandavam. Essa era a única forma de compensá-los por não ter se manifestado como um alfa, da forma que todos esperavam.

Eijirou vinha de uma linhagem extensa de alfas de prestígio e renome dentro da corte. Seu pai, assim como seu avô e os homens antes deles, possuíam o título de Grão-Duque e uma relação de confiança e proximidade com o rei no comando. O que permitia algumas regalias exclusivas para a família Kirishima ao longo dos anos. Então, quando Eijirou nasceu como um beta, todos os pesadelos dos seus ancestrais caíram sobre seus ombros.

Agora, sua única forma de manter o título de nobreza, era casar-se com um alfa da alta sociedade, com importância e precedentes sem iguais, pois, os títulos eram concedidos somente aos alfas da família. Algo que Eijirou nunca seria, e que seus pais tinham prazer em lembrá-lo a cada temporada de casamento.

A cada nova temporada era o mesmo, desde seus 16 anos. Sua mãe começava a soltar indiretas sobre moças e rapazes alfas que poderiam ser um ótimo partido e fazer Eijirou o homem mais feliz e cheio de luxo de todo o país. E ele sempre conseguia algum defeito para afugentar as ideias da mãe sobre casá-lo tão novo.

Entretanto, ao completar 20 anos, e seu pai dizer que já tinha passado da idade de arcar com suas responsabilidades, ele não conseguiu escapar. Tudo depois daquele ultimato foi rápido, turbulento e caótico. Foi apresentado ao seu futuro marido, Minoru Mineta, o mais novo Capitão-Tenente da Marinha de Shiketsu. Um alfa.

Mineta era querido e bem-visto por todos os membros da aristocracia, até mesmo o rei parecia amar o alfa. Mas, Eijirou não conseguia sentir nada de bom ao olhar para o homem, a não ser tédio e asco por alguém ter um ego tão inflado. Mineta gostava tanto de falar das suas próprias glórias, que Eijirou duvidava que o alfa precisasse realmente de um navio, pois, apenas o tamanho do seu ego podia fazê-lo flutuar sobre as águas por meses a fio.

— Você está me ouvindo? — Eijirou foi tirado dos seus devaneios com o pedido de Mineta por atenção.

— Claro!

— Certo, então como estava dizendo… O almirante sorriu orgulhoso de mais uma decisão estratégica que tomei para expulsar aqueles piratas asquerosos de nossos portos — afirmou encarando Kirishima com expectativa de um elogio.

Recebendo apenas o silêncio como resposta, voltou a falar:

— O que me diz? Não está orgulhoso da bravura e inteligência do seu noivo!? Isso apenas mostra como você é um homem sortudo e terá direito a vários privilégios ao meu lado — Mineta disse colocando a mão esquerda sobre a mão de Eijirou.

O contato fez com que ele quisesse se afastar imediatamente. Outro defeito em Minoru era como ele sempre o olhava com luxúria, parecia que seus olhos o despiam e ansiavam por ultrapassar os limites dos toques físicos. Eijirou não suportava nem o toque mais sutil de Mineta, então com delicadeza ele puxou suas mãos e escondeu no bolso de seu sobretudo.

— Me sinto imensamente sortudo — mentiu — Podemos entrar? Estou achando aqui muito frio, e quero ir para o salão onde estão meus pais. Se me permite, é claro.

— Sim, vamos. Não quero que fique doente na nossa primeira viagem de navio. Seus pais me contaram o quanto você sempre quis navegar em alto mar, espero que esteja aproveitando.

— Sim. Estou amando, obrigado, Sr. Mineta.

— Já disse que não precisa ser formal comigo, Eijirou. Me chame de Minoru, logo seremos casados e as formalidades serão só para a corte.

Mineta sorriu, e Eijirou sentiu a bile do seu estômago vir até sua garganta. Com um esforço enorme, ele sorriu e respondeu o mais simpático possível.

— Seria mal-educado da minha parte retirar a formalidade antes do nosso casamento. O senhor não concorda?

— Claro, mas quero que se sinta confortável ao meu lado, já que não teremos muito tempo para nos conhecer melhor antes do casamento.

— Não se preocupe. Estou confortável.

Eijirou disse antes de entrar no salão e ir direto até onde sua mãe tricotava mais um cachecol. Ele queria poder ficar ao lado dela, e longe de Mineta, pelo resto do dia. Mas, o alfa parecia uma sombra que o seguia por todos os lados, bastou que entrassem para que Mineta sentasse próximo a eles.

— Tenente Minoru, seu navio é espetacular. Acho que nunca vi nenhum tão grande e com tantos espaços diferentes.

Sr.ᵃ Kirishima foi a primeira a falar, já bajulando o futuro genro que sorria ainda mais depois do comentário. Estufando ainda mais o peitoral, se é que isso fosse possível, Mineta voltou a se gabar.

  — Fico lisonjeado com suas palavras. A Grã-Duquesa tem um gosto tão refinado, é gratificante saber que meu navio particular a agrada.

— Agrada muitíssimo, assim como sei que agrada meu filho, correto Eijirou? — Sua mãe usava um tom de voz firme e inquisitivo, que o alertava que estaria em apuros caso não concordasse com ela.

— Sim, agrada bastante — respondeu a contra gosto.

Sua mãe continuava a conversa chata com seu noivo, mas Eijirou só queria poder voltar para sua cabine e ficar em paz. Talvez fosse pedir demais dos deuses, pois logo seu pai se juntou a eles no salão.

 — Está aproveitando o passeio de navio, filho? — indagou o pai. Fitando-o com seus olhos castanhos, que pareciam sempre estar cansados, mas que agora estavam cheios de expectativa para que Kirishima fosse um bom filho. Um bom beta que iria agradar ao noivo, se casar e manter o título de grão-duque para as próximas gerações.

— Sim, pai. O passeio está magnífico, o Sr. Mineta me apresentou cada compartimento. Obrigado — respondeu resignado, trocando olhares com os três alfas a sua frente para garantir que falava a verdade.

— Já disse que não precisa se dirigir a mim com tanta formalidade. Logo estaremos casados, Eijirou, portanto me chame de Minoru — insistiu Mineta, mas agora na frente dos seus pais que o dariam apoio e exigiram o tratamento informal com o noivo.

— Desculpe. Fiquei com receio de soar grosseiro caso o tratasse com tanta intimidade. — Se ele iria tirar vantagem da presença dos meus pais para me compelir a chamá-lo pelo primeiro nome, eu não iria ficar quieto também.

— Desculpe-o, Tenente. Ele é tímido; por isso, demora para se aproximar dos outros. — A Grã-Duquesa logo se meteu na conversa. A última coisa que ela queria é um desentendimento que levasse o outro a cancelar o casamento. — Mas, não se preocupe, tenho certeza que daqui para o fim do dia, Eijirou estará o tratando com mais intimidade. Afinal, como ele disse, está aproveitando bastante o passeio e o que é melhor do que um momento junto para as formalidades serem deixadas de lado. Certo, filho?

Agora era a vez da Grã-Duquesa olhar firme para Kirishima. Era indescritível que apenas com o olhar ela o comunicava que ele não podia estragar aquela chance. Era seu dever casar e manter o status da família seguro.

— Ela está correta, Minoru. — esforçou-se para soar natural, mas sua voz parecia rígida demais. — E peço desculpa se minha postura impassível o incomodou.

— Está tudo bem, Eijirou. Fico feliz que estamos nos aproximando — Mineta respondeu beijando a mão de Kirishima e o fitando com um olhar vitorioso. — Agora, preciso me retirar por alguns instantes e verificar se está indo tudo bem com a minha tripulação. Com licença. 

Dito isso, Mineta se foi e enfim Kirishima sentia que podia respirar. Porém, sua paz durou pouco, muito pouco, pois logo seu pai se sentou de frente para ele com olhos duros e exigentes de respeito.

— Olha, Eijirou, eu e sua mãe temos bastante esperança com esse casamento. Você não pode arruinar todo o nosso trabalho de fazer o tenente se interessar por você, um simples beta, desse jeito. Acha que não é perceptível o quanto tenta evitá-lo? Sorte sua que ele é um homem de bem e finge não notar.

— Mas, pai, ele quer ultrapassar os limites da boa conduta a todo momento.

— Eijirou, meu filho — lastimou sua mãe, enquanto parava de tricotar para segurar suas mãos entre as dela. — Sei que demos uma boa educação para você, mas não existe no mundo um casal de noivos que não deu uma escapulida e ultrapassou os limites.

Kirishima ouvia sua mãe boquiaberto, e sentia seu rosto esquentar de vergonha, sua mãe não poderia estar falando sério, poderia?

— Sua mãe está certa. Você tem que parar de se comportar como uma criança e tomar atitudes de acordo com sua idade, você já passou da hora de casar e logo só servirá para trabalhos braçais e sem prestígio.

— Vocês não podem estar me pedindo o que estou pensando, certo?

— A única coisa que estamos pedindo é que você cumpra seu papel de filho e garanta que esse casamento irá acontecer, independente do que você precisará fazer. Lembre-se, o fim… 

— Sempre justificam os meios, como Maquiável bem falou. Sim, pai, estou lembrado — completou cabisbaixo.

O assunto havia acabado, pelo menos por ora, mas ele sabia que se não quisesse falar disso com ainda mais ênfase, precisava se manter no salão. Por isso, pegou um livro para ler enquanto sua mãe voltava a tricotar e seu pai fumava no canto da sala.  

Entretanto, a verdadeira vontade de Eijirou era de se trancar na sua própria cabine, se enrolar em todos seus travesseiros e lençóis, fingindo estar escondido de tudo e todos.

Algum tempo depois Mineta voltou, mas para seu alívio, o tenente resolveu ficar ao lado de seu pai fumando e conversando sobre finanças e políticas. O restante do dia passou com tranquilidade e em certo momento Eijirou se deu por vencido e chamou seu noivo para passear pelo navio, ele queria observar o mar.

E enquanto olhava a vastidão do oceano, fingiu não notar a mão de Mineta em volta da sua cintura, descendo e subindo discretamente. Não adiantava lutar contra isso, contra seus pais, eles estavam certos, se tivesse nascido um alfa teria todo o direito de escolha e de ter quantos casamentos quisesse. Assim como o príncipe do reino de Isamu que já tinha 3 esposas e 1 marido.

Contudo, Kirishima não teve essa sorte, seria apenas mais um de tantos casamentos que Mineta poderia ter no futuro, e ainda deveria ser grato de não ter nascido um ômega. Pois, pelo menos como um beta poderia ainda honrar a família casando-se com um alfa, enquanto os ômegas eram tratados apenas como a escória da sociedade.

Algumas horas depois, Kirishima quase gritou de felicidade quando uma das criadas a bordo chamou todos para o jantar, ele só precisava aguentar mais um pouco todas essas conversas floreadas que só massageiam o ego um do outro, e logo estaria na sua cabine, escondido na sua cama.

 

[…]

 

O jantar foi pior do que Eijirou imaginou, ao invés de um silêncio austero, todos falavam empolgados sobre os detalhes importantes do casamento, perguntando uma vez ou outra a opinião dele. E tudo foi por água abaixo quando o assunto passou a ser a lua de mel e o que Mineta estava planejando. O clima pesava sempre que pediam a opinião dele e logo seus pais tentavam amenizar as coisas. Não foi surpresa nenhuma que quando terminaram de comer, seu pai o chamou em particular para a cabine que dividia com a sua mãe.

— O que você está fazendo? — indagou o grão-duque com impaciência.

— Como assim, pai?

— Não se faça de inocente, Eijirou — gritou enfurecido. O homem estava tão irritado que Kirishima conseguia ver sua peruca sempre bem alinhada começar a bagunçar em sua cabeça. — Você passou o jantar inteiro dando respostas sarcásticas e com pouco interesse no que seu noivo dizia.

— Não tenho culpa se ele é entediante e me forçava a falar sobre coisas constrangedoras. Não quero me casar com ele, pai, se vocês esperarem um pouco mais, juro que encontrarei um alfa que eu goste para casar.

Antes que Eijirou pudesse se preparar, seu pai estapeou seu rosto, logo sentiu a bochecha esquerda esquentar e os olhos encherem de lágrimas. Não era sua culpa Mineta ser um péssimo alfa. Ele tentou naquela tarde, de verdade, mas ser constantemente perguntado sobre o que  queria no casamento, para onde ir na lua de mel, se estava ansioso com a noite de nupcias, ainda era asqueroso. 

— Chega! Escuto isso desde os seus 16 anos, cansei de esperar. Você casará com quem eu escolher e vai gostar! Esqueceu da nossa conversa hoje a tarde?! Não importa o quão entediante o tenente seja para você, dê um jeito de parecer interessado, pois, depois da cerimônia, queira, ou não, terá que cumprir seus deveres matrimoniais.

— Sim, senhor.

Ainda sentia seu rosto esquentar do tapa e, agora, também, de vergonha quando seu pai citou suas obrigações dentro do casamento. Sabia o que estava sendo dito entrelinhas, porém pensar sobre isso sempre o deixava inquieto como se algo, lá, no fundo da sua mente, estivesse arranhando seu cérebro para fugir. Era agoniante.

— Filho, você já tomou a dose noturna do seu remédio?

Sua mãe perguntou enquanto entrava na cabine com um copo d’água e um comprimido em mãos. Kirishima notou quando ela olhou para seu rosto com marcas vermelhas em formatos de dedo, mas ela apenas desviou os olhos. 

— Eu iria tomar mais tarde.

— Deve tomar agora! Quantas vezes já falei que é importante tomar sempre no mesmo horário? Você quer piorar?

— Desculpe.

— Eijirou, querido, sei que um casamento arranjado não te deixa feliz, mas você já está ficando velho, logo será mais difícil ter alguém disposto a casar com você, e sendo um beta essas chances diminuem ainda mais. Nós só queremos o seu bem.

Sua mãe era sempre mais amável com as palavras do que seu pai, mas, assim como ele, deixava bem claro que ser um beta era problemático para o futuro da família. Eijirou até achava que fosse o medo dela pelo seu futuro que a fazia ser conivente com a autoridade excessiva do seu pai.

— Sei, mãe. Eu já prometi que casarei com o Sr. Mineta. Quero dizer, com o Minoru, não voltarei com minha palavra.

— Muito bem. Agora voltemos ao salão, pois o nosso futuro genro preparou uma dança para vocês dois, e separou alguns vinhos raros para nós — relatou sua mãe animada, saindo sem esperar por eles.

— Não me decepcione, Eijirou.

— Não vou, você tem minha palavra, pai.

Kirishima respira fundo a fim de se preparar para dançar com Mineta. Sabia que o alfa iria se aproveitar da oportunidade para segurá-lo melhor entre os braços e não estava pronto para esse tipo de proximidade. Foram poucas as pessoas que já se atraiu, mas seus pais pareciam combinar de nunca concordar com as pessoas que ele gostava.

Olhando para as estrelas, ele pediu ajuda ao universo. Não importa como, mas ele queria se livrar desse casamento. Mas, contrariando todas as suas preces, Minoru foi ao seu encontro, com o olhar fixado em si e descendo pelo seu corpo, analisando cada pequena parte como se quisesse devorá-lo. Era desconfortável e repulsivo.

— Que bom que está aqui. O que aconteceu com seu rosto?

— Não foi nada, apenas esbarrei no mastro enquanto andava distraído.

— Vou pedir aos criados para levarem para o seu quarto um pouco de gelo mais tarde. Mas agora, vim buscá-lo para uma valsa. Já que não estamos em terra firme e sei que é importante a primeira dança de um casal, preparei o salão para nós dois.

— É muita gentileza sua, obrigado. — Eijirou sorriu forçado e se deixou ser levado pelo noivo, que enlaçou sua cintura enquanto caminhavam lado a lado até o salão. Em alguns momentos, podia sentir a mão do outro acariciar a região, e a cada movimento para baixo sua mão chegava mais perto de seus quadris. Era agoniante.

Quando entraram no salão, a música já estava tocando, e Mineta logo o puxou para o centro da área, e eles começaram a dançar. Seus pais aproveitaram o momento para deixá-los a sós, dando ao tenente tempo e privacidade para ser mais atrevido. Kirishima tentava a todo custo desviar de cada investida.

De repente, um dos marinheiros entrou no local correndo, assustando os dois enquanto Mineta puxava Eijirou contra seu corpo tentando protegê-lo — O que Kirishima achava inútil, pois o tenente era menor que ele — o marinheiro tentava recuperar o fôlego para falar. O homem estava pálido e encarava o capitão com preocupação estampada nos olhos, mas sem conseguir emitir som ao abrir a boca.

— Respire marujo, e então fale — ordenou Minoru.

Obedecendo de prontidão, o homem puxou mais o ar, e falou em um único respiro: — Piratas, senhor! O que fazemos?

— Ordene aos homens para preparar os canhões e atirarem quando esses vermes estiverem perto, apenas um tiro para poderem fugir com o rabo entre as pernas, não prenderemos ninguém hoje. A prioridade é a segurança do meu noivo e sua família, por isso estou levando todos para o compartimento de emergência.

Mineta ordenava como se fizesse isso a vida toda, era firme, autoritário e não dava espaço para questionamentos. Eijirou observou o homem fazer continência e sair correndo. Seus pais pareciam desesperados balbuciando frases sem muito sentido, enquanto o tenente os levava para fora do salão, a cada passo do alfa ele olhava ao redor para evitar ser surpreendido.

Kirishima se sentia atônito, ele lembrou-se de todas as vezes que brincou fingindo lutar e derrotar um pirata ou ser o próprio pirata saqueando navios. Mas, agora que isso estava acontecendo de verdade, ele não sabia o que fazer.

Quando eles chegaram no meio do convés, e Minoru se abaixou para abrir um alçapão em direção aos pisos inferiores, o tenente foi surpreendido por um homem de cabelos loiros de um amarelo intenso e uma bandana na cabeça que segurava uma adaga rente à sua jugular. Eijirou olhou assustado para a direção dos seus pais, sua mãe estava com cara de choro, as mãos levantadas assim como seu pai, mas o Grão-Duque, da mesma forma que Mineta, tinha uma arma apontada para sua cabeça, mas por outro homem, um esguio de cabelos pretos.

— Você também precisa levantar as mãos se não quer que ninguém morra hoje a noite — uma voz grave e profunda se fez presente, fazendo Kirishima procurar quem falara — Vamos, levante as mãos que minha paciência está acabando.

Eijirou obedeceu e girou seu corpo para onde seus pais e seu noivo olhavam fixamente como se tivessem vendo um fantasma. E lá estava, em pé do outro lado do alçapão, um pirata. O homem era alto com roupas pretas e um chapéu com uma caveira no centro. Fios loiros escapavam pelas laterais emoldurando seu rosto, o pirata era extremamente viril com uma postura arrogante e olhos vermelhos ousados como o mar tempestuoso. 

— Muito bem, agora vocês figurantes vão ficar quietinhos enquanto saqueamos seu navio — comunicou o pirata loiro sem mover a arma que mirava diretamente para Eijirou. 

— Você não vai machucar meus homens, seu pirata imundo — Mineta gritou e se levantou de supetão.

Era difícil entender tudo que se desenrolava diante dos seus olhos, algo afetou o pirata com a bandana que agora tapava o nariz e abandonou a postura ameaçadora. Dando tempo para Mineta pular em direção ao outro pirata que estava na frente deles.

— Você é o capitão Dynamight, não é? Vou acabar com você e obrigar a sua tripulação a fugir com o rabo entre as pernas — Minoru declarava enquanto tentava acertar com a espada o oponente que apenas desviava.

 — Achei que um tenente fosse mais forte, mas teve que apelar para seus feromônios para distrair um dos meus homens. Que lixo.

— O lixo aqui é você, agora lute a sério!

— Pra quê? Você já está como refém novamente — afirmou o capitão ao mesmo tempo que o pirata de antes se aproximava, também, com uma arma que agora pressionava com força a cabeça do tenente.

— É bom não mover nenhum milímetro seu lixo de alfa. Na marinha, eles não ensinam vocês a não dependerem dos seus feromônios, não?

— Você deve ser um ômega, se meus feromônios te afetaram tanto assim. O que uma escória como você quer tentando ser um pirata? Ou você é a putinha d-

Em um piscar de olhos um tiro foi disparado nos pés de Mineta, este que por reflexo tentou se abaixar para segurar o pé baleado, mas teve os cabelos puxados com força o mantendo em pé e a arma pressionada com ainda mais força na sua têmpora.

— Se você insultar um dos meus homens novamente, o próximo tiro vai ser no meio da sua testa — alertou o capitão pirata que ainda mirava para os pés do tenente.

Kirishima tentou assistir tudo com atenção, mas ao ver uma oportunidade enquanto Mineta brigava com os outros, ele deu um passo para trás, baixou a mão direita e puxou com força a arma da cintura do seu pai. Sem esperar que todos se acalmassem, avançou para frente mirando a arma na cara do capitão pirata.

— Não machuque ninguém. Vocês podem levar o que quiserem, mas não machuquem ninguém, por favor — advertiu Eijirou. Ele podia sentir cada músculo do seu corpo tremendo, mas esperava que pelo menos sua voz não saísse tão trêmula.

— Ora, ora… temos um gatinho arisco aqui. Muita coragem sua me fazer de refém — provocou o loiro com um sorriso debochado no rosto, uma mão levantada e aberta, enquanto a outra segurava a arma apontada para o chão do convés.

— Eijirou, seu tolo! Devolva-me a minha arma e fique quieto! A Marinha já deve estar vindo ao nosso resgate — gritou o grão-duque em desespero.

— Não, pai! Eles vão demorar e eu sei que posso manter a gente vivo.

— Pare de falar besteiras, você não sabe de nada! Agora me obedeça, antes que se machuque.

— Interessante — interrompeu o capitão pirata — Como você manterá todos vivos? Um dos meus homens pode agora mesmo chegar por trás de você e te fazer refém novamente. Igual o baixinho aqui — disse apontando para Mineta.

— Solicito a lei pirata: ‘’o utoque compensandis ver’pari’’ — Kirishima falou com confiança, mas a reação dos piratas ao ouvirem a lei o fez ficar inseguro.

Todos os três começaram a rir, principalmente, o capitão deles que sorria ainda mais que antes.

— Errou a pronúncia, mas mesmo assim, faz tempo que não vejo ninguém solicitando a utroque compensandus vero pari . Agora, não sei se você é muito corajoso ou muito burro, mas aceitarei. Quais são suas condições?

— Ele não pode estar falando sério, Capitão. Você está falando sério, cara? — indagou incrédulo o pirata de cabelos amarelos.

— Muito sério.

 Eijirou tentou parecer o mais confiante possível, não sabia que teria direito a condições além de ser mantido vivo, mas iria aproveitar essa chance para deixar sua mãe mais calma. Ainda mantendo a arma apontada para o capitão, ele respirou fundo antes de declarar suas condições recém-adquiridas.

— Quero que você não mate ninguém deste navio. Nem criados, marinheiros ou nós, todos devem ficar bem. Podem levar o que quiserem. Ah! E não revidaremos, então deixe meus pais ficarem ao menos sentados no chão, eles já são idosos.

— Só isso?

— Sim.

— Certo. Pinky, amarre as mãos e os pés dos mais esquentadinhos, a mulher e o gatinho arisco aqui podem ficar soltos, mas, vocês dois, mantenham as armas miradas para os reféns. Uma garantia a mais que eles manterão sua palavra.

Com essa fala do Dynamight, Kirishima viu uma mulher de cabelos rosa e pele negra se aproximar silenciosamente e fazer exatamente o que foi pedido. Ele não tinha a visto por aqui, quando foi que ela chegou? Ele seria uma presa fácil caso não tivesse solicitado a lei pirata que decorou quando ainda era criança.

Todos permaneceram calados, seus pais foram ajudados a sentar e apenas a Grã-Duquesa e Eijirou não tinham os membros amarrados. A pirata de cabelo rosa voltou a sumir, mas o capitão deles permanecia em pé de frente para Kirishima com um sorriso arrogante no rosto como se estivesse se divertindo com tudo.

— Você pode abaixar a arma gatinho. Não vamos machucá-los, você solicitou a lei, lembra?

— Uma garantia a mais que vocês irão seguir a lei.

Quando Kirishima parafraseou o pirata, este riu ainda mais divertido com a situação. O que deixava Eijirou mais confuso com a postura do outro, ele não temia a morte?

— Usando minhas próprias palavras contra mim. Você é bem interessante para um burguês.

— Cala a boca, seu pirata imundo, ou Eijirou irá atirar — berrou Mineta se contorcendo a fim de se soltar das amarras que prendiam seus braços e pernas.

— Então, o gatinho arisco segue suas ordens?

— Eu não sigo as ordens dele.

— Como assim? Você será meu esposo e terá que me obedecer, pois são os alfas que detém a última palavra em um casamento — Mineta afirmou aborrecido olhando diretamente para Eijirou.

— Eu ainda não sou… Argh! Inacreditável. Você quer mesmo discutir isso aqui, enquanto somos mantidos de reféns por piratas? — indagou Eijirou sem tirar os olhos do inimigo.

As palavras do noivo ecoavam na sua cabeça, e em meio a toda tensão da situação, a última coisa que ele precisava era saber que iria se casar com um homem que é defensor da supremacia alfa.

— O gatinho tem razão, seu alfa de merda, não é bom brigar entre vocês na frente de piratas — o sarcasmo escorria em cada palavra de Dynamight, mas assim como Kirishima ele mantinha seus olhares fixos um no outro. — Se me permite, irei amarrar a boca do seu noivo, a voz dele me irrita.

— Isso é ultrajante! Eijirou atire no pé dele para ficar quieto, igual ele fez comigo.

Kirishima sentia sua cabeça latejar a cada ordem que Mineta vociferava, a tensão em seus músculos aumentava com receio do pirata se mover e fazer algo contra qualquer um deles, e ele só queria ainda mais voltar para o seu quarto e se esconder do mundo exterior.

Com um sorriso complacente no rosto, Kirishima se vira para olhar Mineta nos olhos e tenta acalmá-lo antes que suas falas idiotas estraguem tudo.

— Minoru, querido, eu disse que não iríamos revidar, e o pirata disse que não nos faria mal algum. Vamos apenas esperar que partam, por favor. Depois podemos desfrutar do restante do passeio, nós dois, como você queria mais cedo, sim? — propôs, fingindo submeter-se aos caprichos de Mineta.

Mineta não voltou a falar, mas permaneceu com o semblante aborrecido por não ser obedecido. Eijirou sabia o quê suas palavras deixaram implícito, mas não estava preparado para as consequências, só de pensar em mais cedo quando o tenente pediu que se beijassem, seu corpo tremia de aversão aos toques alheios.

Voltando seu olhar para o capitão pirata, surpreendeu-se ao encontrá-lo com a expressão fechada. Será que ele queria tanto amordaçar o tenente que ficou bravo? Porém, antes que pudesse perguntar ou falar mais alguma coisa, a mulher de antes voltou.

— Capitão! Já levamos tudo para o nosso navio, já podemos zarpar — anunciou.

Ela agora tinha uma tiara dourada sobre o cabelo rosa e um colar de pérolas no pescoço, que Eijirou sabia pertencerem à sua mãe, e uma caixa grande entre as mãos.

— Muito bem, agora vamos embora. Deixem os dois esquentadinhos amarrados — ordenou Dynamight apontando para Mineta e seu pai, o Grão-duque. — E… A senhora é bom se manter sentada até que deixemos o navio, ou serei obrigado a voltar para amarrá-la, e não queremos isso, não é?

Imediatamente, os dois homens que apontavam as armas na cabeça do seu pai e de Mineta foram embora. Eijirou podia enfim relaxar os ombros e se virar para sua mãe, mas foi surpreendido quando mãos fortes rodearam sua cintura e seu corpo foi levantado com facilidade.

O capitão pirata carregava-o sobre os ombros como se fosse uma saca das mercadorias roubadas para o navio inimigo. As mãos alheias se ajustaram, a esquerda segurando suas pernas e a direita se manteve firme na sua cintura, impedindo que se movesse ou saísse da posição.

— O que você está fazendo? Me solta! Você não pode me matar, estamos sobre um acordo! — Kirishima gritava e batia com as mãos nas costas do pirata que parecia nem sentir. E enquanto se afastavam, era possível ouvir os gritos de protesto da sua família.

— Primeiro: não vou te matar. Segundo: quando for ameaçar alguém com uma arma, é bom lembrar de tirar a trava, gatinho.

Ao ouvir as palavras do pirata, Eijirou sentiu seu rosto esquentar de vergonha. No fim ele foi inútil, um beta inútil como seu pai sempre o lembrava. Apenas fez papel de bobo da corte na frente de todos e ainda colocou suas vidas em jogo, teve sorte do pirata não os matar.

— E terceiro… — O pirata continuou pontuando seus próximos passos que envolviam o futuro de Kirishima. — Estou apenas pegando a minha parte do acordo. A pessoa que solicita a lei: utroque compensandus vero pari concorda em ter a vida poupada, assim como suas exigências cumpridas, em troca de servir ao capitão pirata como um dos seus tripulantes. — Era possível sentir o contentamento no tom alheio. — Bem-vindo a bordo do seu mais novo lar, gatinho. Conheça o navio Great Explosion: Murder God Dynamight.

Eijirou sentiu seu coração acelerar, suas mãos suarem e tudo ao seu redor ficou silencioso, apesar dos apelos dos seus familiares não terem parado. Quando saiu do navio de passeio de Mineta, a realidade despencou sobre seus ombros e o medo o dominou. Ele acabara de concordar em ser um pirata sem saber.

Notes:

Se você leu até aqui, muito obrigada! Essa fic é totalmente eu fazendo uma experimentação criativa e me deixando escrever sem me julgar, ou ficar pirando achando que está péssimo. Estou tentando colocar em prática a ideia do ''Feito é melhor que perfeito'', portanto não sei bem quando virá a próxima atualização, mas prometo tentar ser o mais breve possível. (Pelo menos já estou escrevendo o capítulo 2).
Até o próximo cap. (espero).