Chapter Text
- Merda. – Tomura chia ao perder o equilíbrio se esticando na ponta dos pés, os braços vacilam no ar e ele aperta a mandíbula chupando uma respiração entredentes. A contusão na lateral do corpo protesta com o alongamento exagerado, mas se força a alcançar a caixa na prateleira antes de desmoronar sobre a tampa do vaso com um grunhido dolorido.
Leva um minuto (ou dois) para se recompor, endireitar a postura com movimentos rígidos e deixar o ar dos pulmões sair lentamente; cada respiração faz uma nova onda de dor atravessar o seu corpo. Se der sorte não quebrou nada, mas não contaria muito com isso, não é do tipo agraciado com algo tão abstrato e ilógico. Sorte é um luxo para pessoas como ele.
Ainda assim, prefere ignorar a voz do bom senso – que soa muito como Kurogiri – lhe dizendo para checar com o médico por garantia, mas só o pensamento daquela morsa careca o tocando como se não passasse de mais um dos seus objetos de testes, faz a sua garganta fechar e o estômago embrulhar. Pra não vomitar precisa travar a mandíbula e empurrar para longe as lembranças muito vívidas de uma sala estéreo branca e frígida, luzes fluorescentes que fazem os seus olhos doerem e a cabeça latejar, e uma maca hospitalar desconfortável.
Inspirando pelo nariz, Tomura apoia as costas na parede e remove a tampa do kit salva bundas, como Jin gostar de chama-lo. Não passa de uma caixa de madeira grosseiramente decorada com adesivos coloridos e brilhantes que Himiko achou fofo, mas que serve bem ao seu propósito de armazenar tudo o que eles podem precisar para se remendar quando necessário.
Se inclinando com os olhos estreitos tenta ler os nomes esquisitos dos medicamentos, a lâmpada pendurada sobre a sua cabeça balança feito um pêndulo e sombras dançam no azulejo manchado nas paredes. Ali há uma variedade de analgésicos, anticépticos e frascos de calmantes pela metade, estojo para sutura e inibidores de cheiro que podem ou não ter vencido; entre outras coisas que ele nem sabe para o que serve.
Não demora muito para encontrar o que quer, um par de bandagens limpas, pomada para hematomas e analgésicos fortes. Ele os alinha sobre a pia sistematicamente na ordem que pretende usá-los, um de cada vez, tomando cuidado para manter tudo longe das áreas molhadas e prestando atenção aos mindinhos erguidos no ar por segurança.
Logo a caixa vai parar no chão com um som seco de coisas chacoalhando e é chutada para fora do caminho por um pé descalço, ela bate na parede oposta e para. Tudo fica em silêncio até um chiado escapar entredentes, o piso do banheiro está gelado e arrepios sobem pelas pernas magras, é como se agulhas penetrassem na sua carne; reflexivamente puxa o pano de chão de volta sob os pés e esfrega os dedos no material áspero. Odeia a sensação do frio alcançando os seus ossos, faz as articulações doerem.
Aparentemente esse é algum tipo de efeito colateral do Decay, que impede o seu corpo de reter calor ou qualquer merda nesse sentido, não estava prestando atenção quando o doutor explicou, cheio de jargões médicos que fazem pouco sentido para um garoto de 10 anos que não consegue entender por que tudo tem que doer tanto e quer que alguém fizesse aquilo parar. Agora entende que é culpa, principalmente, de um quirk que ele nunca pediu para ter, mas que infelizmente é o único que tem e não há troca ou devoluções.
É tão irritante, precisa ser tão cuidadoso com tudo o que toca e estar constantemente atento aos seus dedos é cansativo. Às vezes, quando tudo coça e dói e a sua pele ressecada descasca ou quando destrói algo importante por acidente, acha que esse poder está mais próximo de uma maldição.
Uma nova pontada de dor arranca outro gemido seu, por um instante apenas fica ali xingando baixinho e remoendo esse dia de merda, tudo deu errado desde que saiu da cama para ser um membro produtivo desse lixo de sociedade. Depois de se trancar no quarto por três dias inteiros, para lidar com o maldito cio, pareceu estranho caminhar pelas ruas novamente e sentir outros cheiros além do seu próprio.
Tentou ser otimista durante todo o trajeto até a loja de conveniência apesar da ansiedade rastejando sob a pele como uma doença infecciosa sempre que alguém se aproximava demais, conseguiu comprar o que queria e dar o fora dali em tempo recorde. Tudo o que ele não precisava naquela hora era encontrar dois alfas estúpidos no meio do caminho.
A sua respiração é suave enquanto massageia os nós rígidos dos dedos, eles estão vermelhos e feridos, entretanto, mal registra a dor; os seus olhos permanecem no sangue seco grudado na pele rompida, o vermelho escuro contrastando com o branco leitoso. Como conseguiu esses arranhões? Quando foi empurrado contra a parede daquele beco ou na hora em que quebrou o nariz do primeiro filho da puta?
Não consegue lembrar bem, tudo parece um borrão sem sentido, uma mancha, até o momento em que tomou o controle da situação e... Tomura corta essa linha de pensamento balançando a cabeça para dispersa-los, não tem tempo pra ficar remoendo toda essa merda.
Esticando um braço longo e magro alcança o frasco laranja e deixa quatro comprimidos caírem na palmada da mão; eles são brancos, compridos e achatados. Sua testa se franze por trás da franja enquanto os joga de um lado para o outro, encarando as coisinhas diminutas como se pudesse desintegrar cada uma delas. E de fato ele pode, se quiser acha que consegue tocá-las com os cinco dedos, mas se quer se livrar da dor não tem para onde fugir.
Com isso em mente solta um suspiro resignado, sua expressão se contorce numa careta cheia de repulsa quando joga as pílulas dentro da boca fechando os olhos com força. Sua garganta contraí quando as engole e um lamento escapa dos seus lábios no fim do processo. O gosto nojento e amargo fica preso na língua, é repulsivo, e precisa conter o impulso de passar a manga da roupa nela assim como fazia quando era criança.
Depois disso superado Tomura arrasta a bunda até a beirada do assento e olha para a roupa que está usando; um moletom dois números maiores que o ideal, desbotado num cinza sujo e desgastado nas bordas, o material é macio e não irrita a sua pele sensível. O que é um bônus. Se livrar dele não é tão difícil, tudo o que tem de fazer é tocar no pano grosso para transformá-lo numa pilha de poeira, só que está tão farto de destruir roupas e objetos no geral por causa do seu quirk, perdeu tantas coisas importantes durante todos esses frustrantes anos.
É por isso que, estalando a língua aborrecido, agarra a parte de trás da gola com quatro dedos e puxa com um cuidado que geralmente não tem, apesar da dor que o faz estremecer. Vai arrancar essa coisa inteira por pura teimosia e despeito!
Se despir se mostra mais difícil do que parece com os seus membros desajeitados e os dedos rígidos, só depois de vários grunhidos e xingamentos que consegue se livrar da peça, a enrola numa bola disforme e a descarta num canto. Imediatamente novos arrepios percorrem a sua pele exposta, sobem pelos braços e se espalham pelo resto do dorso, mas ignora isso em favor de verificar o estrago feito.
A visão que tem quando inclina a cabeça para dar uma boa olhada não é nada bonita. Além de escoriações menores, o seu lado direito tem uma mistura de cores manchando a pele feito tinta sobre uma tela branca; um roxo desagradável cobriu a área das costelas e o vermelho irritado se espalhou ao longo do peito. Não é de se estranhar que respirar e se mover dói tanto.
A pele fina se estica sobre os músculos magros, destaca os ossos salientes e cada imperfeição; há tantas cicatrizes antigas, algumas mais visíveis que outras. Não é agradável de se olhar, mas isso nunca o incomodou. Sua aparência não é relevante no meio em que vive, então, por que gastar energia nisso? Mesmo que os seus instintos ômega tenham lutado contra esse desleixo durante todos esses anos, não havia motivos para mudar isso.
Agora o próximo passo é a aplicação da pomada e Tomura reconhece isso deixando os ombros caírem sem entusiasmo. O cheiro de mentol é refrescante e faz cócegas no nariz quando inspira fundo, mas o gel se sente frio quando o espalha sobre a parte maltratada com movimentos circulares. Apesar dos toques suaves e cuidadosos, é inevitável sentir dor; precisa apertar os lábios numa linha fina para não gemer enquanto se concentra em não pressionar demais.
Feito isto ele limpa os dedos na coxa da calça e afasta os cabelos do rosto lambendo o gosto de ferro dos lábios, há uma ferida que parou de sangrar, mas que continua inchado. Os seus ouvidos ainda estão zumbindo com ruído branco, é irritante e parece ficar mais alto conforme as imagens da pequena briga que teve piscam na sua mente, é como se um projetor antigo e defeituoso estivesse instalado na parte de trás do seu crânio.
Se fechar os olhos e se concentrar também consegue farejar o cheiro azedo dos dois alfas, os feromônios pesados e sufocantes para intimidar o ômega solitário. O seu estômago revira e a bile sobe pela garganta queimando feito ácido, mas se força a engolir. Os seus dedos se contraem em resposta e um rosnado puxa os cantos dos lábios, eles não deviam tê-lo subestimado por ser um ômega. Bem, eles não vão repetir este erro novamente.
Ainda pode sentir a sensação da carne se deteriorando ao seu toque, foi tão satisfatório assistir a expressão de terror nos seus rostos feios quando a pele começou a esfarelar sob o seu toque. Não é a primeira vez que isso acontece e sabe que não devia estar tão eufórico sobre isso, mas não consegue abandonar esse sentimento, está cansado de se controlar sempre que um filho da puta acha que é uma boa ideia tirar algo que é seu.
Não se arrepende, só estava se defendendo, mas ainda se sente inquieto quando tudo se acalma e tem que digerir o que fez. É uma merda lidar com a culpa atormentando a sua mente, então tenta se convencer de que todos que vivem deste lado da cidade conhece os riscos. Isso o ajuda a respirar melhor e parar de se penitenciar.
Uma vez tentou falar com Dabi sobre isso. Era uma noite tranquila até o alfa idiota aparecer na sua porta sem um aviso, com as roupas encharcadas de sangue e resmungando – Um filho da puta sangrou em cima de mim. Não quis saber dos detalhes, o deixou entrar, emprestou algumas roupas suas – que nunca foram devolvidas – e o assistiu revirar os armários da cozinha atrás de comida. Quando tocou no assunto, a única resposta que obteve foi um encolher de ombros e uma frase pronta: antes eles do que eu.
Não era o que queria escutar, e ainda acha que Dabi podia elaborar uma resposta melhor, mas não dá pra exigir muito do cérebro meio-cozido. Então, deixou por isso mesmo.
Sem entusiasmo, pega a bandagem dobrada e se apressa para terminar de uma vez por todas. Precisa segura a ponta com os dentes e usar as mãos para se enrolar com a faixa do jeito que consegue, o que não é tão fácil quanto gostaria que fosse; ela escapa e afrouxa e precisa começar tudo de novo. Na quarta tentativa a sua paciência – que não é das melhores – espana de vez e um grunhido aborrecido vibra no seu peito enquanto observa a bandagem se deteriorar lentamente entre os seus dedos, a poeira se acumula no chão aos seus pés.
Uma voz odiosa sussurra na sua cabeça, repetindo o quão patéticas são as suas tentativas de parecer ser normal mesmo com esse quirk hediondo, que não consegue fazer uma tarefa simples sem destruir as coisas a sua volta. Inútil. Merda de quirk inútil!
O seu estômago se contraí quando a frustração do dia começa a transbordar, mas tenta engarrafar esse sentimento agarrando as coxas num aperto forte, cravando as unhas na calça e mordendo o lábio com força até sentir o gosto de sangue. Fechando os olhos se concentra em respirar pelo nariz e escutar sons que vem de fora, mas o seu pescoço está pinicando como se um enxame de insetos o mordesse de dentro para fora e é tão doloroso manter as unhas longe do seu alívio. Só precisa arranhar essa coceira, enfiar os dedos sob cada camada de pele e se livrar dessa porra.
- Foda-se. – cospe sob a respiração quando é demais para suportar e os seus dedos alcançam a pele fina, coçando com vigor renovado. Não consegue parar, não depois de começar.
Logo o seu pescoço e clavículas ganham novas marcas irritadas, pequenas gotas de sangue brotam das novas feridas e o cheiro metálico flutua no ar. Isso devia ser repulsivo, mas é tão reconfortante. Só precisa aranhar até tudo arder em carne viva e esse sentimento desagradável desvanecer num zumbido distante no fundo da sua mente. Faça parar, faça parar!, é tudo o que consegue pensar de forma coerente.
Não está prestando atenção, então não escuta passos se aproximando ou a voz o chamando do corredor, até ser tarde demais e um grito o assustar para fora da própria mente; as suas mãos congelam no ar e lentamente ergue a cabeça feito uma presa encurralada. Parada na soleira da porta está Toga, o olhando com os seus grandes olhos dourados e a boca aberta em choque. Merda, merda, merda!
Engolindo seco, Tomura espera uma eternidade (talvez) até a garota finalmente quebrar o contato visual e piscar, um sorriso doentio de excitação puxa os cantos dos lábios cheios de gloss. Isso o faz torcer o nariz quando fareja o cheiro artificial de framboesa, mas não se move do lugar, nem mesmo quando ela solta uma risadinha atrás da manga do suéter. É detestável.
- Tomura-kun – ela começa, num tom estridente que faz todo o seu cérebro chacoalhar dentro do crânio. – Posso provar o seu sangue? – pede cheia de entusiasmo se aproximando num pulo pouco gracioso.
- Não. Fica longe, sua pervertida. – responde secamente, retraindo as mãos para mais perto do corpo.
Ela faz beicinho lhe dando uma imitação barata de um olhar de filhote, mas logo a sua atuação cai por terra e a expressão excitada volta ao seu rosto redondo, com direito a um sorriso cheio de dentes e bochechas coradas. Sem nenhum decorro Toga se ajoelha no chão gelado e agarra os seus joelhos ossudos para se firmar como se a situação fosse completamente normal.
- Mas cheira tão bem!
Tomura franze a testa enquanto o seu olhar caí dos olhos amarelos para as mãos que o tocam, não está realmente incomodado, apenas observa como são pequenas e bem cuidadas comparadas as suas. Se prestar atenção, consegue distinguir o cheiro de mirtilo, suave e agradável, sob todo o perfume artificial que faz o seu nariz se contrair. Toga Himiko é uma ômega assim como ele, mas não podiam ser mais diferentes.
As unhas pintadas com um esmalte rosa-claro raspam o pano áspero do jeans quando a loirinha se inclina mais perto para espiar o hematoma, a mudança não é sutil, ele pressiona os lábios numa careta e se afasta com um olhar descontente, que é completamente ignorado. Himiko não entende o conceito de espaço pessoal, mesmo com todos os sinais, continua avançando feito uma criança que tem de tocar e cutucar tudo.
Algo relacionado com a busca por afeto e vínculo com outras pessoas que lhe foi privado – ou qualquer merda que Sako explicou e não deu atenção. Ainda assim, o incomoda por motivos óbvios, não é uma pessoa tátil. Aproximações descuidadas são arriscadas demais.
- Só um pouquinho? Prometo não fazer nada estranho. – pede, sacudindo as pernas magras, exigindo atenção do amigo.
- Querer provar já é estranho o suficiente, sua vampira maluca. – bufa, revirando os olhos exasperado, mas o canto da sua boca se contraí num meio sorriso carinhoso quando a risada borbulhante dela enche o banheiro.
Não se incomoda com a fixação dela por sangue, a conhece por longos – bem longos mesmo – dois anos e sequer pestaneja quando escuta os absurdos que saem dessa cabecinha louca, afinal, quem é ele pra julgar alguma merda esquisita? Já viu muita coisa bizarra durante todos esses anos em que ajuda Kurogiri no bar, não é uma adolescente que vai assustá-lo. E não importa se a aparência bonitinha não se encaixa com a personalidade distorcida, Himiko continua sendo Himiko – irritante, barulhenta e intrometida –, independente dos seus gostos excêntricos.
Indo contra todas as probabilidades é a única ômega que já deixou se aproximar em anos, ela não o julga e nem faz comentários desagradáveis sobre sua aparência. Apesar de ser um pé no saco, consegue suportá-la em doses pequenas quando está no humor para isso. Entretanto, hoje não é um bom dia para escutar a tagarelice sobre a sua mais nova paixão, só quer manda-la se foder em outro lugar.
- Você não devia estar na escola, louca? – pergunta, distraído, arranhando o pescoço novamente.
- Ei, não pode, Tomura-kun! – ela o repreende, como quem raia com um cachorro desobediente e segura os pulsos finos; a expressão séria no seu rosto não combina com a personalidade radiante. – Gosto do sangue, mas não gosto de você se machucando assim!
O par de olhos vermelhos a encaram de perto com a expressão em branco, ele força os braços para se soltar, mas a garota é persistente e cava aquelas malditas unhas bem-feitas nos seus pulsos. Sabe que pode facilmente superá-la, mas está tão drenado e dolorido que acaba desistindo assim que sente uma nova pontada nas costelas e com um suspiro derrotado deixa os braços caírem no colo se inclinando contra a parede.
- E isso importa?
- Sim! Assim não é nada fofo! – afirma, cheia de confiança, sorrindo e erguendo o queixo feito uma gata atrevida o desafiando a discordar da sua lógica.
Ele não faz, no entanto. Apenas respira fundo inalando os cheiros calmantes que a ômega está soltando deliberadamente, isso ajuda a diminuir a ansiedade e logo um ronronar tranquilo vibra no seu peito. O remédio também está começando a surtir efeito, pouco a pouco sente o seu corpo mais pesado e as reações letárgicas, é mais fácil respirar agora.
Quer se arrastar até a cama e ficar lá pelo resto do dia, mas ainda não terminou de se concertar, precisa se enfaixar. Só que na situação atual têm duas opções que soam ruins mesmo dentro da sua cabeça; a) tentar sozinho e se frustrar, ou b) pedir ajuda pra a Himiko que já está ali e pode muito bem se fazer útil. Não é como se ela tivesse algo melhor pra fazer, considerando quão acomodada e despreocupada está sentada no chão frio do seu banheiro tirando pelos de gato do seu suéter.
É uma péssima ideia, pensa esfregando o nariz na palma da mão para se livrar do cheiro de mirtilos e framboesa nublando os seus sentidos. Por fim, estala a língua olhando aborrecido para a bandagem extra desfeita sobre a pia, vai se arrepender tanto disso, merda.
- Ei, se vai ficar aqui, faça algo útil. – diz, mal humorado, ganhando a atenção dos olhos dourados curiosos.
Tomura está feliz que a adolescente é rápida de raciocínio, não precisa explicar o que quer dela para o rosto redondo se iluminar num entendimento e as mãos delicadas começarem a trabalhar com cuidado. Segurando a ponta e mantendo os braços fora do caminho, tenta não atrapalhar; a posição é incomoda, o seu primeiro instinto é se afastar do contato, mas se obriga a ficar parado quando braços curtos envolvem o seu tronco dando voltas com a faixa.
A respiração para na garganta e seus músculos tensionam enquanto espera terminar, para não pensar nisso, fecha os olhos e inclina a cabeça para trás. E ainda assim, está hiper consciente dos toques diretamente na pele, mesmo que Himiko faça o possível para não o perturbar muito, é só que... Toques diretos são demais para ele.
- Tudo pronto, Tomura-kun! – ela canta soprando uma risada e finaliza o trabalho com um nó apertado, que arranca um grunhido ofegante do ômega mais velho.
Se afastando rapidamente, verifica o resultado; toda a parte superior do tronco está devidamente enfaixada num aperto firme, mas não imobilizante, isso vai ajudar a limitar os movimentos bruscos, fazer a contensão de danos. O aperto na mandíbula relaxa quando deixa um suspiro escapar dos lábios ressecados e os seus ombros caem liberando a tensão.
- Bom trabalho. – diz, tardiamente, esticando o braço para dar tapinhas amigáveis na cabeça loira.
- Não sou um cão! – Himiko protesta, ofendida, inflando as bochechas e espantando a mão ofensiva.
- Cães são menos irritantes. – provoca com um sorriso antes de parar para olhar toda a bagunça no banheiro; a caixa de remédios está jogada no canto com todo o seu conteúdo revirado e a poeira se espalhou por todo o chão, vai ser um saco limpar tudo, mas decide que não vale a pena se preocupar com isso agora.
Engolindo um gemido de dor encara a garota sorridente que o espera se balançando para frente e para trás, sabe que não vai conseguir se livrar dela tão cedo desta vez, e só porque a pirralha o ajudou não vai reclamar (muito). É meio irritante quando Himiko está nesse tipo de humor, exigindo atenção, o pré-cio a deixa toda carente e pegajosa. Uma parte sua detestar ter que lidar com essa merda, mas é fisiológico e nenhum ômega devia passar por isso sozinho. Especialmente garotas de 16 anos que são obviamente negligenciadas.
Aceitando o seu destino se levanta com cuidado, as articulações estalam feito gravetos secos, passa as mãos pelos cabelos compridos e firma os pés antes de sair do banheiro apertado se apoiando nas paredes; se sente sonolento e drenado. Felizmente, o apartamento é pequeno e o corredor é tão curto que com três passos já está na porta do quarto.
Não precisa olhar para saber que ela o está seguindo de perto quando entra no quarto e acende as luzes, as regulando para o mínimo possível sem correr o risco de tropeçar nos próprios pés e cair de cara no chão. O lugar está um caos como de costume, há uma pilha de roupas ao pé da cama de casal, guias de jogos e mangás amontoados sobre a cômoda, e a mesa do computador é uma bagunça de fios e tralha gamer que a ômega loira nunca vai entender para o quê servem.
Sem dizer uma palavra atravessa o pequeno espaço até a cama, no caminho pega uma camiseta de mangas longas da pilha de roupas e a veste com pouca dificuldade antes de se acomodar no colchão macio. O seu corpo relaxa no conforto familiar do seu ninho improvisado; é só um amontoado de travesseiros e dois cobertores suaves e limpos que conseguiu encontrar enterrados no armário, eles têm o seu cheiro e isso o ajuda a se manter calmo. Ali não há alfas estúpidos tentando roubá-lo ou estranhos o julgando.
Quando se faz confortável, puxa um par de luvas de artista sob os travesseiros e as coloca cuidadosamente para só então abrir espaço para a loirinha se deitar ao seu lado. Ele quer culpar os estúpidos instintos ômega, mas algo vibra de contentamento no seu núcleo quando a sente se aconchegar mais perto descansando o rosto no seu ombro ossudo, buscando conforto.
Não é incomum para os ômegas se reunirem nesse período para confortar uns aos outros, principalmente os não marcados, mas tudo ainda é novidade para Tomura. Ele está tentando aprender – ser criado por um beta não o preparou para esse tipo de coisa –, mas é tão difícil não repelir qualquer tipo de contato, faz a sua pele pinicar.
- Sem coçar, Tomura-kun. – ela o repreende, dando um tapa na mão ofensiva.
Mais chocado do que surpreso, ele puxa as mãos contra o peito e estreita os olhos vermelhos arreganhando os dentes num rosnado, que teria intimidado a maioria das pessoas com bom senso e que conhece o seu temperamento. Bem, exceto Himiko, mas ela é louca e não conta.
- Já falei pra não tocar nas minhas mãos.
- Não tenho medo das suas mãos.
- Mas deveria. – resmunga, se sentindo amargo, afundando a cabeça nos travesseiros contrai os dedos, testando os movimentos e as luvas; elas cobrem três dedos de cada mão, o material se ajusta bem a pele, mas ainda o incomoda.
Mesmo odiando a atenção constante que precisa ter por causa do seu quirk, odeia ainda mais usar essas malditas coisas pra não destruir algo ou alguém por acidente. Ele é melhor que isso e pode lidar com essa merda por conta própria, ainda assim... Não quero correr o risco, pensa, olhando de soslaio para a figura descontraída ao seu lado. Himiko continua indiferente aos riscos.
- Dabi-kun vai ficar chateado se te ver machucado. – ela afirma, num tom divertido para aliviar o clima, farejando o humor dele azedar; quase pode ver as engrenagens na cabeça dele se moverem junto com os pensamentos desagradáveis. Ela sabe disso, os instintos de uma garota nunca falham!
Num primeiro instante os movimentos de Tomura congelam, o seu cérebro processa lentamente a informação, até o canto do seu olho se contrair num espasmo involuntário. – Foda-se aquele idiota.
- Garotos são tão estúpidos sobre os sentimentos. – lamenta, soltando um suspiro dramático. É sofrível assistir os dois rapazes idiotas dando voltas e voltas, se recusando a admitir os sentimentos fofos. Ela nunca vai entender os garotos!
- E você é irritante.
- Admite que gosta dele!
- Vai a merda. – murmura mal humorado e, numa ação pouco madura, puxa um dos cobertores para mais perto se virando de frente para a parede.
- Boa noite, Tomura-kun. – Toga deseja, dando uma risadinha atrevida enquanto o abraça feito um bicho de pelúcia grande.
- Cala a boca, ou te chuto pra fora daqui.
A garota apenas sussurra um acordo divertido e ele relaxa deixando os efeitos dos analgésicos tomarem o seu corpo. Não demora muito para ambos adormecerem, confortáveis e relaxados, ressonando baixinho em meio aos feromônios ômega reconfortantes.
