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Não Facilite com a Palavra Amor

Work Text:

“Não facilite com a palavra amor.

Não a jogue no espaço, bolha de sabão.

Não se inebrie com o seu engalanado som.

Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).

Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão

de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra

que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.

Não a pronuncie.” (O Seu Santo Nome, Drummond)

-§-

Janine entra no banheiro sem bater.

Sherlock acabou por escolher meias-verdades, quando a convidou para jantar uma semana após o casamento de John e Mary. Essas eram mais críveis do que mentiras e permitiam uma certa zona de conforto. Disse a ela que geralmente não saia com mulheres, ao qual ela respondeu que não estava surpresa. Nunca disse uma palavra sobre Victor Trevor, ou que sua experiência limitava-se a uns poucos "experimentos" mal sucedidos sobre sexualidade durante a faculdade. Achou melhor não tentar explicar que havia relegado sua libido a um canto obscuro do Palácio Mental.

De vez em quando, esta tomava a forma de Irene Adler - dominante, insistente, frustrante - e encontrava um caminho até a superfície da consciência, Sherlock não tolerava tal distração.

Janine espia pelo canto da cortina de plástico.

“Onde você esteve a noite toda? Trabalhando em um caso?”

“Hm,” o detetive responde.

Eis mais uma verdade: disse a Janine que não gostava de sexo. Ela aceitou prontamente, pareceu achar isso de alguma maneira adorável. "Do que você gosta, então?", ela perguntou com um sorriso vagamente malicioso. Os olhos de Sherlock se demoraram um segundo a mais no lugar onde costumava ficar a poltrona de John Watson.

Janine era uma mulher muito bonita. Ele não podia discordar disso, mas havia alguma coisa que simplesmente não estava certa quando os lábios dela tocavam nos dele.

“Eu posso assistir você?” ele perguntou, escolhendo um tom de voz aveludado e ligeiramente desconfortável. O desconforto real, que ele reprimiria em outra situação, fazia-se útil nesse caso.

“Oh. Isso é diferente.”

Quando Sherlock resgatou Irene, o senso comum provavelmente iria imaginar uma aventura erótica, típica de um tabloide descrevendo as proezas masculinas de um super herói do imaginário popular. A verdade é que não houve tempo ou vontade. A Mulher precisava organizar a logística de sua fuga e uma nova identidade nos Estados Unidos o mais rápido possível. Houve uma noite reveladora: fingiram ser um casal de férias no pequeno hotel paquistanês, e deitaram lado a lado em uma cama espaçosa. Ela passou a noite deslizando o pé ao longo do tornozelo de Sherlock. Ela estava completamente vestida, nenhuma maquiagem, máscaras ou armaduras. Sherlock apreciava as pequenas rugas ao redor dos olhos astutos dela.

Irene Adler (porque Sherlock não ousava exprimir o nome dela de forma incompleta, assim como ela só poderia chamá-lo de Sherlock Holmes) contou sobre como ela amava as outras mulheres, e amava ainda mais ter controle sobre a situação, informação, acesso a tudo de confidencial que poderia fazer com que essa atribulada existência não fosse entediante. Sherlock contou sobre Victor Trevor, John Watson, e sobre o Trabalho, a única forma que ele conhecia de prevenir autodestruição. Os dedos longos e pálidos enroscaram-se no cabelo dela. Eles trocaram um olhar e riram como adolescentes trocando segredos.

Ainda havia uma certa curiosidade, mas nenhum deles estava mais jogando e de certa forma, haviam declarado um acordo de paz mútuo, tensão se dissipando agora que um havia salvo a vida do outro e ambos eram homossexuais. “Brainy is the new sexy” não era nenhuma mentira, eles conversaram a noite inteira e, quando se despediram, Irene disse que havia sido divertido.

Parecia menos moralmente repreensível se ele não tomasse liberdades demais com a Janine de qualquer forma. Sherlock acreditava que os fins justificavam os meios, e Janine havia oferecido sexo antes. Havia alguma diferença fundamental entre aceitar a paquera dela durante a festa do casamento e, posteriormente, usar esse meio como um possível acesso para Magnussem? Sherlock precisava de uma maneira de entrar naquele prédio e descobrir como e onde o criminoso arquivava informação sobre suas vítimas. O baú do tesouro, quase que literalmente.

Janine ofegou, despenteada, a mão entre as pernas. Ela riu.

“Tenho que admitir, isso fica bem melhor com alguém olhando.”

Sherlock escolheu seu melhor timbre galanteador para repetir frases dos emails que John mandava para suas namoradas. O detetive havia lido todos eles. Levianos, melosos, superficiais. Havia muito mais em John Watson do que podia ser expresso em poesias com rimas quebradas.

“John, você é péssimo com as palavras.”

“John, seu Inglês é terrível e faria linguistas vexarem.”

“John, quando seus sentimentos reais tocam a superfície, você não ousa falar neles.”

“John, talvez não sejamos tão diferentes assim...”

Por alguma razão, ele estava fazendo tudo corretamente e Janine parecia satisfeita com o relacionamento casual. Eles haviam jantado juntos algumas vezes e ela dormia em Baker Street três noites por semana, nem sempre junto dele. Ela gostava quando ele deduzia as pessoas no restaurante, ele sentia falta dos dias que ia jantar com John. "Mas o que você faz com essas informações?" ela perguntou. O detetive deu de ombros, só importavam se servissem ao caso. Ele arqueou as sobrancelhas, Janine era mais uma vítima de Magnussem? Sherlock não usava as deduções para nada além disso porque fora seu método sistemático de observação, ele não tinha como necessariamente provar certas coisas, muitas das quais era meras constatações que qualquer um poderia observar se realmente se esforçasse. Além disso, ele deduzia várias pessoas diariamente e era impossível lembrar de cada uma delas. Sherlock simplesmente não se importava tanto assim com as pessoas e seus motivos.

Certa noite, Sherlock teve que sair pela porta dos fundos do apartamento da senhora Hudson para que fosse visto agindo de forma furtiva por algum possível espião do patrão da moça, mas nada que fosse um grande incomodo.

“Ora, Sherlock,” havia um lado da mente dele que tinha a voz de John. Irene estava do lado do médico, vestindo apenas um sobretudo e rindo-se. “Você prefere dormir na cracolândia do que junto da madrinha morena?”

John achava graça, mas sempre perdoava Sherlock por suas estranhezas.

Sherlock não havia perdoado John por ter desaparecido, se enfiado naquela viagem estúpida e, por mais que a Mary fosse doce e absolutamente aceitável para quaisquer padrões (onde Sherlock era rude e intratável!), ele havia confirmado as expectativas do detetive. As coisas haviam mudado.

Três semanas e nenhuma mensagem, telefonema, telegrama. Sherlock tentou hackear o blog do ex-militar (duplamente útil, atrair a atenção de John e de partes que estivessem interessadas em comportamento errático como prova de que ele estava escondendo algo podre), mas havia sido em vão.

John está na sala, se perguntando onde a poltrona dele havia ido parar. – Ah, Sherlock sabia que ele ia notar!

Janine deixa a camisa que ela havia emprestado de Sherlock sobre a bancada da pia, empurra a cortina e entra no chuveiro. Ela ri quando a água espirra nela e Sherlock ri de volta, porque ele sabe que as paredes são finas o suficiente para John ouvir.

Janine era engraçada e ele acha tão estranho como em apenas poucas semanas de amassos contidos e voyeurismo - Janine havia trazido um brinquedo de silicone azul para essas noites - a mulher tenha desenvolvido uma atitude tão intima. Era como se ela fosse completamente segura quanto à própria sexualidade e não possuísse inibições, nem estivesse agindo dessa maneira por motivos insondáveis.

O fato é que Sherlock não se interessava muito por sexo (ato que ele considerava um desperdício de energia, fora a perspectiva aterradora de perder o controle dessa maneira na frente de alguém), embora intimidade fosse algo desejável dependendo das circunstâncias. Não qualquer intimidade. Ele pensa na expressão de John, relaxado e com o pé descalço tão perto da coxa de Sherlock. Por mais que tenha bebido na despedida de solteiro, ele ainda tem recordações vívidas de tudo que (não) aconteceu. O quanto John iria se arrepender se Sherlock tivesse permitido uma indulgência quanto à curiosidade reprimida que pairava entre os dois amigos. Sherlock lembrava bem de si mesmo, trôpego, contente, brevemente esquecido de que estava prestes a perder seu blogueiro para a enfermeira loira que gostava de assar pão caseiro. Aquela noite fora a primeira desde a Queda do “Herói do Reichenbach” em que Sherlock se sentiu em casa. Foi com muita força de vontade que ele não reagiu ao toque da mão pequena e firme do outro homem. John tocava muito pouco em Sherlock, mas ele era das únicas pessoas que, quando o faziam, não causavam um estranhamento que parecia escorrer pelos poros da pele do detetive. “Você me mantém no lugar,” ele havia dito no discurso para John. E isso queria dizer tantas coisas, John mantinha Sherlock centrado, calmo, em casa.

Você tem que relaxar mais.” Janine diz, enchendo a mão de shampoo e atacando o cabelo embaraçado dele. "Confiar mais nas pessoas que gostam de você."

“Oh?” Sherlock diz. Deixar que ela lave o cabelo dele é algo que ele consegue participar sem aquela sensação de como se estivesse prestes a gritar em angústia.

“Hm-hm,” ela responde, mas não se aprofunda no tema.

John Watson havia escrito que gostava de banhos demorados em uma banheira, acompanho com velas aromáticas e sais especiais.

Sherlock vivera tempo o suficiente com John para imaginar como seria se eles fossem alguma outra coisa, além de amigos. Ele apreciava a ideia de dividir um leito com John. Eles haviam dormido juntos uma vez, em um hotel que só tinha uma cama. John queria dormir no chão, mas Sherlock ordenou que ele parasse de ser ridículo. Aquela noite rendeu meses de memórias vívidas de sensações, calor e cheiro.

Haviam as manhãs que pegavam o detetive distraído. Em tais dias, ele imaginava os dedos de John trançando um caminho por suas costas nuas, indo da nuca ao cóccix e causando arrepios de um tipo bom. Nem picos de cocaína pareciam tão convidativos quanto a possibilidade de ver como eram os olhos de John Watson no exato momento em que eles abriam pela manhã.

Ele apreciava a ideia de dividir um desses banhos longos com John, ficar mergulhado na água morna até que eles desmanchassem em uma unidade indistinguível. Sherlock queria internalizar a bússola moral, queria acomodar no peito esse coração metafórico que havia crescido externamente. Sherlock queria entrar de mãos dadas com John Watson no Palácio Mental e mostrar todas as coisas incríveis que haviam lá.

Sherlock detestava a realidade, que de alguma forma insistia em sair de seu controle e nada acontecia da maneira que ele queria. E maldita boa influência que era John, ele não teve a coragem de roubá-lo para si quando teve a oportunidade.

“Você está atrasada para o trabalho,” ele diz para Janine quando toda a espuma havia escorrido do cabelo do detetive e as mãos dela estavam começando a tocar de maneira muito lânguida. Ela belisca a nádega do homem e deixa ele sair do box.

“Se comporte,” ela diz, compreensiva. Em seguida, murmurando para si mesma o ritmo uma música pop, Janine concentrou-se no próprio banho.

Sherlock pega a toalha mais próxima e passa pela porta que ligava o banheiro ao quarto. Ele abre o guarda-roupas e escolhe seu conjunto mais impecável. Adeus, Shezza; olá, Sherlock.

Sherlock resigna-se e guarda os pensamentos sobre John e intimidade inalcançável no compartimento de coisas impronunciáveis e vergonhosas. “Erro humano,” ele dizia a si mesmo. Ele precisava contar a John sobre o caso, Magnussem, Appledore, chantagem, conspirações. Isso interessaria John, isso ele podia compartilhar com John. Ele precisava mostrar a John tudo que ele estava perdendo.

“Você. Tem uma namorada?” John pergunta. Ele sorri quando está nervoso e fica graciosamente agitado quando está com ciúmes. Internamente, Sherlock regala-se em um sorriso de satisfação cruel, mas é dolorido. O quanto Sherlock estava disposto a abrir mão, e em troca de migalhas?

“O caso, John.”