Actions

Work Header

Like a Prayer

Work Text:

Shamira dirigia-se à Pariser Platz ao soar das vinte e três horas . A novidade parecia estar entranhada no ar noturno que enchia seus pulmões. Todos os seus anos de vida lhe permitiam reconhecer e antever as transformações no mundo. E 1989 seria apenas o começo.

 

Ela voltava da Suíça com a certeza de que a pesquisa do jovem inglês que conhecera modificaria por completo a vida na Haled. E agora, as imediações do Portão de Brandemburgo estavam tomadas pelo vozerio das comemorações e do tilintar dos canecos a brindar o barulho das pedras caindo ao chão.

 

Buzinas competiam a atenção com os tambores da banda. Um grupo de berlinenses estourou um champagne. Três jovens obtinham sucesso em abrir um buraco no muro utilizando-se de pedras e martelos. Shamira sentiu uma onda de calor passar a sua esquerda e maravilhou-se ao ver um homem que cuspia fogo.

 

Mais à frente, ela pôde entreouvir parte da conversa de um casal enquanto caminhava:

 

- Gostou? - perguntou a mulher de jeans e blusão preto.

- Sempre tive uma queda por ruivas. - ele respondeu.

-Desde quando?

-Desde agora.

 

Shamira girou os olhos em reprovação assim que deu às costas para os dois. Um grupo de amigas riam-se abraçadas enquanto caminhavam e tudo o que ela queria era um lugar mais calmo para observar aquele espetáculo. A poucos metros da praça, ela deparou-se com três jovens conversando animadamente enquanto bebiam suas cervejas em frente a um bar. Ela olhou para a janela do estabelecimento e o ambiente lhe pareceu vazio o suficiente.

 

No meio de tanta comemoração, quase ninguém reparou quando ela entrou e sentou-se numa das banquetas em frente ao balcão. Ela pegou a bebida que havia pedido e, após tomar alguns goles, reparou na música que estava tocando no rádio e que, por vezes, era abafada pelas risadas da clientela.

 

Life is a mystery, everyone must stand alone

 

 

Era o hit do momento. Dinamarca, Canadá, Reino Unido, não importava para qual país ela viajasse lá estava o mais novo sucesso da Madonna a lhe perseguir. Shamira tomou mais um pouco de sua bebida e inesperadamente pegou-se prestando atenção na música.

 

I hear you call my name
And it feels like home

Shamira pensou em Ablon. Lembrou-se de como se conheceram. A voz dura de Zamir a quebrar o silêncio do desfiladeiro ainda reverberava em sua mente:

 

- Espanquem-na!

 

Seu peito doía. Sua esperança parecia estar deixando-a, tal qual o sangue que escorria de sua boca. Ao ver três homens descerem de seus cavalos, fechou os olhos. Um estranho silêncio havia se instaurado, Shamira sentiu a presença de alguém muito próximo a ela. Ao abrir os olhos, viu os olhos cinzas de um estranho, nunca imaginaria o quanto eles estariam presentes em sua vida.

 

O então desconhecido examinou os ferimentos aparente de Shamira sem se importar com os soldados que o cercavam.

 

- Alto, lá! Forasteiro! - Zamir interpelou indignado - Quem é você que debela nossas fronteiras?

- Sou um viajante , mas já conheço um pouco estas bandas – e pela primeira vez Shamira ouviu aquela voz forte – Seguia o caminho do meu santuário, quando avistei o pelotão em perseguição à mulher. E pra que tanta gente?

- Ela é um bruxa. - Zamir acusou.

- Ora… Ela não me parece assim tão perigosa. Sua prisioneira está quase morta, vou levá-la comigo

- Não vai ser conseguir tão fácil.

- Eu imaginei que não.

 

Após a luta que se desenrolou , Shamira deixou que Ablon a carregasse em seus braços. Naquele dia, e la não sabia como ele se chamava , mas a cada vez que eles se reencontravam Shamira passava a gostar mais do som de seu nome naquela voz forte.

When you call my name it's like a little prayer

 

 

 

Sua bebida já estava pela metade. A seu lado, o velho barman tentava limpar o balcão com uma pano marrom .


I'm down on my knees, I wanna take you there
In the midnight hour I can feel your power
Just like a prayer you know I'll take you there

 

 

Shamira riu-se baixo ao levar o copo à boca e agradeceu por não ter querido rir um pouco depois. Apenas agora havia percebido o quão dúbia era aquela passagem da música. Pensou em como Ablon, todo sério e introspectivo como ele era, reagiria ao ouvir aquilo. Também suspeitava que o riso contido que o barman tinha era por achar que ela já estava ficando alegre com tão pouca bebida.

 

- Ah, a ignorância é uma benção… - ela pensou.

 

Olhando para o fundo do copo meio vazio, Shamira deu-se conta do quanto sentia falta de escutar a voz de Ablon. A espera de cada reencontro era angustiante, mesmo tendo ambos a eternidade.

I hear your voice, it's like an angel singing
I have no choice, I hear your voice
Feels like flying
I close my eyes, Oh God I think I'm falling
Out of the sky, I close my eyes
Heaven help me

Shamira ouviu o soar da meia noite e pensou no muro que caía. Quantas possibilidades antes inexistentes não seriam abertas para o mundo? Ainda era possível ouvir o murmurinho da felicidade que se espalhava para além da porta do bar. E novamente contemplando a superfície lisa do balcão de madeira, a feiticeira já cogitava a hipótese de acabar sua bebida e sair do estabelecimento.

 


When you call my name it's like a little prayer
I'm down on my knees, I wanna take you there
In the midnight hour I can feel your power
Just like a prayer you know I'll take you there

 

- Pensei que eu fosse o único desanimado no meio dessa festa.

 

Shamira sobressaltou-se com a proximidade da voz. Ao virar- se, viu o homem que, mais cedo na praça, falhara miseravelmente em elogiar a mulher ruiva. Sua aparência não era de todo ruim: m agro, cabelos e olhos escuros. Vestia jeans e uma jaqueta que lhe dava um certo ar de rebeldia que poderia muito bem ter seu charme se ela já não o tivesse escutado abrir a boca.

 

- Não é como se não estivesse acontecendo mais nada no mundo . - ela respondeu de maneira séria.

 



Like a child you whisper softly to me
You're in control just like a child
Now I'm dancing

 

 

Ele pediu uma bebida ao barman e sentando-se na banqueta ao lado de Shamira continuou:

 

 

- Concordo. Por isso que eu acho que as pessoas mais felizes são as que não sabem de nada.

 

- É. - Shamira concordou monossilábica esperando que a conversa não continuasse.

– Como eu sei de muita coisa… - ele olhou para a garrafa que segurava e levantou-a brevemente como em um brinde.

 

A feiticeira sorriu de esgueio e olhou para o seu copo:

 

- Somos dois.

 


It's like a dream, no end and no beginning
You're here with me, it's like a dream
Let the choir sing

 

 

- Qual é o seu nome? - ele perguntou

 

Shamira exitou por alguns milésimos de segundo e mentiu:

 

- Sofia.

 

Ela percebeu a expressão do rapaz ficar séria por um momento, mas então ele riu-se:

 

- O que foi? - ela perguntou confusa.

 

- Estou querendo saber se isso é uma maldição ou uma bênção.

 

A feiticeira abafou uma risada . Havia entendido:

 

- Ex-namorada?

 

- Ex-mulher.

 

 

When you call my name it's like a little prayer
I'm down on my knees, I wanna take you there
In the midnight hour I can feel your power
Just like a prayer you know I'll take you there

 

 

- Ah… - e Shamira ainda se esforçava para conter o riso perante a situação que provocara – Mas você não parece do tipo que se prende a alguém.

 

- É, não sou. – ele concordou e deu o primeiro gole em sua bebida – Mas já vivi muita coisa.

 

Shamira esboçou um sorriso e deixou escapar um suspiro curto. Definitivamente aquele simples rapaz não fazia ideia do que era viver muito tempo.

 

- Quem escuta você falando assim… - ela disse de uma forma mais bem humorada - até chega a pensar que atravessou séculos durante sua vida.

 

Ele riu-se e devolveu:

 

- Você gostaria de ser imortal?

 

- Mas é claro que sim.

 

- Não acha que seria uma vida solitária? - ele havia abandonado o tom de brincadeira.

 

- Não se você encontrar as pessoas certas. – ela respondeu contendo um sorriso – Aliás… não é preciso viver para sempre para ser sozinho.

 

Life is a mystery, everyone must stand alone
I hear you call my name
And it feels like home

 

Shamira fechou os lábios com certa força e deixou escapar um sorriso enviesado que só era permitido àquelas pessoas que carregavam a certeza do saber demasiado. Por mais que o julgasse apenas como um simples rapaz, Shamira não podia dizer que ele não era interessante, mas definitivamente já havia conhecido melhores.

 

- E depois… - ela bebeu o que restava em seu copo - O problema ou a vantagem de se viver para sempre - ela sorriu brevemente já se levantando da banqueta - é que o passado sempre volta.

 

Just like a prayer, your voice can take me there
Just like a muse to me, you are a mystery
Just like a dream, you are not what you seem
Just like a prayer, no choice
your voice can take me there



Shamira deixou o dinheiro no balcão, olhou uma última vez para o desconhecido e dirigiu-se até a porta, não escutando o que o rapaz pronunciara em voz baixa:

 

- E é por isso que ainda vamos nos reencontrar.

Just like a prayer, I'll take you there
It's like a dream to me