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My Baby Shot Me Down

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Aquele janeiro fora realmente divertido para os dois, ainda que Severo não parecesse muito animado às vésperas de seu aniversário. Mas Lily já devia estar acostumada, ele odiava aniversários.

I was five and he was six

Sentados à sombra de uma grande árvore, Lily tentava explicar para Severo sobre o filme que havia assistido na televisão, mas não estava sendo nada fácil fazê-lo entender o que era faroeste.

We rode on horses made of sticks

- Quer dizer que os heróis montam em cavalos? – ele disse reprimindo a vontade de rir.

- E os vilões também... Mas o que conta em um duelo é quem atira primeiro.

-Duelo? Como um duelo bruxo? – ele perguntou curioso e ela percebeu que ele já não estava mais rindo.

- Mais ou menos, acho... A diferença é que não se usa varinhas, mas armas.

- O que são armas? – perguntou ele muito interessado.

- O que os trouxas usam para ferir os outros.


Lily parou de guardar a louça ao lembrar-se do seu diálogo com Severo. Ficou-se perguntando se desde aquela época as trevas já estavam escondidas em algum lugar nele. Nunca havia imaginado que viriam a tomar caminhos completamente opostos que os separariam para sempre: ele Comensal da Morte e ela membro da Ordem da Fênix.

He wore Black and I wore White

Ela suspirou. Nunca saberia dos motivos que o levaram para as trevas. Pôs-se a guardar novamente a louça, seu olhar pousou na paisagem que a janela mostrava e a lembrança daquele janeiro voltou sem que ela se desse conta.


- Vamos duelar? Mas tem que ser duelo bruxo. – ele propôs ao mesmo tempo em que pegava um graveto do chão.

He would always win the fight

Lily aceitou o desfio e agarrou um graveto próximo a ela. Os dois ficaram de costas e contaram até três, mas quando se viraram ele foi mais rápido em pronunciar algo, acertando Lily que caiu teatralmente ferida no chão.

Bang bang, he shot me down
Bang bang, I hit the ground
Bang bang, that awful sound
Bang bang, my baby shot me down


Ela finalmente havia terminado de guardar a louça. Puxou uma cadeira e mal havia se acomodado quando ouviu um barulhinho ao longe, escadas acima. Harry acordara. Ao olhar aquele embrulhinho que se agitava, seu coração encheu-se de alegria. Aquele era seu filho, seu filho e de James... James... nunca quando era adolescente, nem mesmo em seu sonho mais absurdo, chegara a cogitar a hipótese de se quer namorar James Potter. Mas os últimos anos em Hogwarts haviam mudado muita coisa: Ela afastou-se de Severo, a quem ela tanto queria e aproximou-se de James, quem ela tanto odiava.

Seasons came and changed the time

Lily ainda olhava seu filho como se tentasse adivinhar o que o futuro guardava para ele. Custava acreditar que o garoto sonserino com quem costumava passar as tardes livres à beira do lago tivesse se tornado aquilo que ela mais temia e desprezava: um Comensal da Morte. Pensativa como estava, foi fácil voltar a pensar naquela tarde quente de seu quarto ano em Hogwarts. Ela, que já havia cumprido seus deveres e decidiu-se por fazer uma leitura à beira do lago acobertada pela sombra de uma faia.

O tempo morno, o silêncio e o voltear das águas provocado pela Lula Gigante fizeram com que as linhas dos livros se embaralhassem e que sua visão embaçasse, até que finalmente ela adormeceu. A calmaria, o cochilo e a solidão duraram pouco, pois Lily acordou assustada com a presença de alguém ao seu lado:

- Ah! – sobressaltou-se – Ah, é você, Sev.

When I grew up I called him mine

Ele sorriu ao ver as feições de Lily se tranquilizarem.

-Estava te procurando. Te encontrei e não quis te acordar.

He would always laugh and say
Remember when we used to play

Ela também sorriu:

- Ok. Pode me dizer o que você queria. Sou toda ouvidos.

- Eu só... – Snape começou a falar e de repente ela percebeu que não havia ninguém ali – queria... – e durante todos os quatro anos na escola eles estavam sempre juntos, um para o outro no que precisassem – queria... – Ela pensou no quão estavam perto um do outro, mas ela queria que permanecessem assim. Seus lábios se tocaram e seus braços e mãos se uniram ao corpo do outro.

Bang bang, I shot you down
Bang bang, you hit the ground
Bang bang, that awful sound
Bang bang, I used to shoot you down

Antes que se desse conta, um leve sorriso brotou em seus lábios. Ela realmente havia amado Severo Snape.

Music played and people sang
Just for me the church bells rang

Mas seu sorriso se desfez e um sentimento ruim fez pesar seu peito. A vantagem de nunca ter falando com ninguém sobre ela e Severo era que não precisava tornar público o arrependimento que sentia. O segredo mitigava seu erro. Afinal, como ela podia se esquecer daquele dia...

Now he's gone I dont know why
Until this day, sometimes I cry

- DEIXE ELE EM PAZ! – Lily berrou e apontou a varinha para Sirius e James que a olhavam com feições preocupadas.

- Ah, Evans, não me obrigue a azarar você. – pediu James.

- Então desfaça o feitiço nele!

James suspirou contrariado, virou-se para Snape e murmurou o contrafeitiço.

- Pronto. – disse enquanto Snape se levantava – Você tem sorte de que a Evans esteja aqui, Ranhoso…

E Snape disse a frase que os separaram para sempre:

- Não preciso da ajuda de uma Sangue-Ruim imunda como ela.

He didn't even say goodbye
He didn't take the time to lie


Lily foi tirada de seus pensamentos ao ouvir a porta da frente se abrir. Um par de vozes estavam conversando no andar de baixo, uma delas era a voz familiar do marido e a outra também era há muito conhecida; Lily a ouvira por sete anos consecutivos anunciar a abertura e o encerramento do período letivo: era Alvo Dumbledore.

Ela desceu para recepcionar a visita, mas o sorriso que havia em seu rosto logo sumiu ao observar as expressões sérias de James.

- O que aconteceu, querido?

James pediu que todos se sentassem e Dumbledore tomou a palavra:

- Eu vim até aqui para alertá-los, Lily. Eu recebi informações confiáveis de que Voldemort está em busca de Harry.

- Meu filho? – Perguntou Lily preocupada e surpresa.

– Ao que tudo indica, - continuou Dumbledore – há uma profecia que trata sobre um menino nascido no final de julho que será capaz de derrotar Voldemort.

- Nós precisamos nos esconder, querida. - James segurou a mão de Lily - Se ele conseguir nos encontrar, matará Harry, matará todos nós.

- Por isso vim oferecer proteção a vocês. Sugiro que façam o Feitiço Fidelius. Acho que já sabem como funcionam por conta da Ordem da Fênix, não?

- Sabemos. – respondeu Lily.

- Eu mesmo me ofereço para ser o fiel do segredo de vocês.

- Não, Dumbledore... acho melhor não. – disse James – Me desculpe – emendou – É obvio que ficamos gratos por se oferecer, mas acho que seria muito óbvio para ele. Precisamos pensar em outra pessoa.

- Está bem – disse Dumbledore sério, mas sem parecer ofendido. – Mas pensem bem na escolha que farão. O fiel é um posto muito importante no feitiço e a pessoa deve ser de extrema confiança, devo lembrá-los disso.

Dumbledore foi embora deixando em Lily apreensão, medo, preocupação e uma pontinha de esperança de que a fonte do aviso tivesse sido um Severo Snape arrependido das escolhas que havia feito.

Pouco mais de uma semana se passou desde a visita de Dumbledore e a noite do dia das Bruxas finalmente havia chegado. Lily havia posto em Harry um pijama azul. A casa estava toda enfeitada para a ocasião, incluindo o móbile de corujinhas que James colocara acima do berço de Harry, o que fez o filho dar gostosas gargalhadas.

O cheiro do assado saía da cozinha e se espalhava pela casa. James brincava com Harry que passava ligeiro por suas canelas montado em uma vassoura de brinquedo. Um ranger inesperado do portão fez Lily voltar da cozinha e James tomar Harry em seus braços enquanto espiava pela janela da sala.

- Lily, leve o Harry e vá! É ele! Vá! Corra! Eu o atraso.

Bang bang, he shot me down

Lily deixou cair a tigela de água do gato que trazia consigo e saiu aos tropeços da sala com o filho nos braços. Quando estava ao pé da escada ouviu a porta da frente se escancarar e uma gargalhada aguda encheu a sala. Lily subiu os degraus aos tropeços até o quarto do filho.

Bang bang, I hit the ground

- Harry você é tão amado, tão amado… Harry a mamãe te ama... o papai ama você. Harry, cuide-se. Seja forte.

Ouviram-se passos subindo as escadas. Não era James. Lily, movida pelo instinto de mãe, tirou o filho do berço e o abraçou enquanto a porta arrebentava às suas costas.

- O Harry não! O Harry não! Por favor… farei qualquer coisa.

Aproveitando-se da distância entre ela e Voldemort, recolocou Harry berço e ali permaneceu como um escudo entre ele e o filho.

- Afaste-se. Afaste-se, menina!

Mas Lily não se movia, ainda permanecia frente ao berço:

- O Harry não, por favor não, me leve, me mate no lugar dele.

- Afaste-se, sua tola. Afaste-se, agora!

- O Harry não! Por favor… tenha piedade… tenha piedade…

Ela viu a figura cadavérica de Voldemort apontar a varinha em sua direção.

- Avada..

Bang bang, that awful sound

Lily só pensou em Harry. Morreria defendendo seu filho daquele monstro, do assassino enviado por aquele quem um dia ela amou.

- ... Kedavra!

Bang bang, my baby shot me down